sábado, setembro 02, 2006

O GENERAL QUE RECUOU

O mês de Maio de 2002, no Lubango, anunciava um rigoroso cacimbo. Com paz nova, esperanças renovadas. Isto apesar de algumas dessas esperanças serem profundamente idosas, tal como cantou um dos mais célebres músicos angolanos. Era moda os campos de aquartelamento, comissões mistas, viagens aos locais onde estava o pessoal daquele lado e tentativas de integração total dos milhares de homens que andavam errantes pelo país, qual guardiões de uma causa que apenas poucos conheciam a génese, a essência. Como acontecia com frequência, tanto depois da paz, assinada, ou mesmo nos últimos 4 anos de conflito entre irmãos desavindos, o comando local das FAA elegia repórteres para a cobertura de eventos estratégicos. Parecia que a norma era, quanto mais longe ia a mensagem melhor era para o generalato da frente militar sul. Homens, estes, enclausurados nas redomas das suas constelações ostensivamente ombreadas para soldados e para os soldados da caneta. A meio do quinto mês , no ano que devolveu a paz para a maioria o território nacional, mais uma vez fomos convocados. Trabalhava como correspondente para a Radio Ecclesia e Voz da América, colaborador no pequeno jornal local SANAPRESS e efectivo na Radio Comercial 2000. Solicitado para ir, melhor para mim. Antes já tinha andado com os mesmos militares em varias frentes avançadas de guerra. ( Exemplo Chipindo 2001, de que escrevo em próximas memórias..... ) No Lubango, as comissões das FAA e das FALA reuniram por cinco horas. O encontro foi nos descrito como cordial. A meio da tarde as delegações decidem partir, sem jornalistas, para um campo de aquartelamento localizado no Chipindo. Mesmo com os protestos de alguns jornalistas presentes, o helicóptero levou apenas militares de alta patente e dois repórteres de imagem, um cameraman e um fotografo. Horas depois, eis o regresso e a conferencia de imprensa com a revelação mais bombástica daquele tempo. O poderoso general da região revelava aos microfones de vários jornalistas que morrem 5 homens do galo negro por dia e na data já 45 tinham perecido. Pela gravidade do assunto, ao cair da tarde revelo a Ecclesia e Radio 2000 os acontecimentos. O eco parece grande na tal sexta feira. Sou solicitado para mais dados sábado. A informação volta a carga a Voz da América, segunda feira. Porem, terça feira, a direcção provincial de investigação criminal manda um oficio para que, por crimes contra a segurança do estado e difamação ,responda. Dai é um passo. Investigador intimidatorio, AKM na sala de interrogatório, revolver no colder, perguntas que indiciavam manipulação dos dados por parte do escriba e a inépcia do homem que vergava um garboso fato azul, mas, contudo, incoerente até com o mais comum dos verbos legados por um Camões distante na historia desta magica língua. O “ tac tac” da velha maquina de escrever do escritório policial era a única coisa que quebrava ritmo acelerado do meu coração. Mas contudo, nada de solidariedade por parte dos outros homens de imprensa, até mesmo para a comercial onde dava o litro. O interrogatório foi moroso. Cansativo mesmo. Foram horas. Hora de volta para frente e outras de vai, mais para trás. Fui mandado em “ paz” , depois de assinar as minhas declarações. Antes fui advertido que, a qualquer momento, poderia ser chamado para novos dados. Gelei ao ver que o homem, apesar de ser de má catadura, nada inventara. Assinei, preparado para falar aos amigos desta aventura que se transformou rapidamente em noticia no país. Volto ao local de trabalho efectivo ( Radio 2000 ) e avanço, em privado, os meandros da investigação. Nada de solidariedade.... Foi depois do almoço que me ocorre recorrer ao ultimo recurso quando o cerco de um escriba, honesto consigo próprio, se aperta. Recorri a arma da denuncia, qual naufrago a busca de uma ultima tábua, bóia de salvação. Ligo para Luanda para a redacção central da católica. Anuncio o processo, número e tudo. Concordo em fazer uma entrevista. Para alem do processo, concordo em repassar o registo magnético com as declarações da polémica. Felizmente estavam guardadas copias em locais seguros. O diabo poderia tece- las. O impacto foi inesperado. Surgiram telefonemas com a solidariedade de poder contar com advogados. Organizações de defesa dos jornalistas ficam preocupadas com o assunto( ver relatório “reporteres sem fronteiras 2002”) Como era lógico, a católica fez alarde informativo com a entrevista e as palavras do “todo poderoso” eram lapidares, directas e profundamente lógicas para a peça jornalística produzida. A investigação criminal convoca-me novamente, mas antes solicita, por escrito, a cedência da gravação com as declarações da polemica. Com a autorização da direcção da comercial, entrego o registo em K7. Assim que chego ao temeroso gabinete dos crimes selectivos e contra a segurança do estado, o investigador era de todo sorrisos, dizendo, palavra mesmos palavra, que " com jornalistas parece não se brincar" . Incrédulo, perguntava aos meus botões o que e que se passava. Antes mesmo de poder reorganizar os pensamentos, o homem diz sem rodeios: " Pode ir em paz, bom trabalho. Temos ouvido os teus noticiários" . Olhei para o funcionário do estado, sem entender. E ele em segundos foi lapidar: " O general retirou a queixa... "

2 comentários:

Olho Atento disse...

Onde eu andava paranão me aperceber destas peripécias por que passaste? Ainda bem que as re(contas). Como o jornalismo foi ( e continua) um perigo em Angola!!!! Solidariedade post factum. Soberano.

Anônimo disse...

Oi Mano, estou com makas de net, mas loo logo dou te ja um feedback...
Jose Gama