quarta-feira, janeiro 21, 2009

O (meu) reencontro com a Huíla (*)

A Huíla é uma província que me encanta por ser aquela que, para mim, conseguiu fazer da melhor maneira o equilíbrio entre a natureza e o urbano, entre a cidade e o rural e entre o forasteiro e o local.
É uma cidade única, aprazível, com imensas propostas turísticas e gente acolhedora.
Outro aspecto que sempre retive, especialmente do Lubango, é a sua rede de serviços, capaz de agradar os turistas mais exigentes, contrariamente ao que acontece em outros pontos do país que sofrem as consequências de uma eterna assimetria entre o litoral e o interior.

A paisagem que rodeia a cidade alegra quem a visita, com as suas montanhas imponentes e um verde constante, que transmitem uma sensação de paz interior muito buscada nestes dias em que o stress resultante dos engarrafamentos e de horas de trabalho intenso tomam conta de nós. É esta a imagem que tenho da Huíla, uma cidade que aprendi a admirar há seis anos, por altura da primeira visita por aquelas paragens.
Nesta semana, depois de alguns anos distante, pude voltar a visitar o Lubango, que continua acolhedor. Encontrei a mesma beleza, as mesmas gentes e o mesmo encanto. Contudo, há grandes mudanças por lá. Há mais movimento na cidade e até engarrafamento nas horas de ponta, há cada vez mais carros na rua que atravessam estradas em bom estado, contrastando com a realidade de Luanda.
O movimento comercial continua intenso. Abundam as lojas que comercializam produtos diversos, os restaurantes e complexos hoteleiros de luxo, à altura das exigências de uma sociedade cada vez mais consumista, uma realidade que a presença de várias agências bancárias vem comprovar.
Em muitos aspectos o Lubango começa a assemelhar-se com Luanda. Infelizmente, vi alguns episódios tristes que habitualmente vejo por aqui se repetirem por lá, como a agressão de zungueiras. Nas imediações do Governo Provincial local presenciei homens, que desceram de uma carrinha, pontapearem as vendedoras ambulantes, derrubando as bacias, com frutas, que transportavam à cabeça. Eis uma coisa que eu não esperava ver nesta visita.
Outro aspecto que retive pela negativa é o comportamento dos candongueiros que, agora também abundam no Lubango. Numa das vezes em que usei este meio de transporte fui “torturada” por música muito alta, ao ponto de agredir os tímpanos do passageiro. A única diferença é que por lá foi “pop” e por aqui normalmente é “kuduro”. Tanto lá como aqui não adianta pedir para o motorista baixar a música porque, como diriam os brasileiros, ele “não está nem aí”.
A imagem de meninos de rua revolvendo os contentores de lixo em busca de algo marcou a minha memória neste regresso ao Lubango. Com os olhos esbugalhados, olhar penetrante e roupas surradas ou rasgadas, os meninos deixam a nu uma sociedade dominada pelas desigualdades sociais.
No meu regresso notei também que as pessoas têm menos paciência do que antes, estão mais stressadas, preocupadas com os dilemas impostos diariamente pela vida, mas os huilanos continuam amáveis, muito acolhedores e mestres na arte de receber as visitas, deixando-nos com aquela vontade de voltar em breve.
A Huíla é certamente uma província de muitas oportunidades, cujo potencial turístico deveria ser mais divulgado além fronteiras, uma vez que uma exploração sustentada deste potencial poderia beneficiar directamente a população local.

Ao revisitar a Huíla pude reflectir mais sobre o facto de todos nós estarmos afunilados numa Luanda que não tem capacidade de resposta para os seus mais de cinco milhões de habitantes, tudo isso enquanto as províncias do interior continuam subpovoadas. Para inverter este quadro seriam necessárias políticas que incentivassem os quadros nacionais a sediarem-se no interior, o que, certamente, traria ganhos extraordinários para o país.
* Texto de Suzana Mendes, editora-chefe do Jornal Angolense. Publicado na edição de 17 de Janeiro de 2009.

Um comentário:

MESU MA JIKUKA disse...

(Para fazer rir)
Oh Manel,
Tu sempre com a tua Huila e o teu Lubango... será que são tão bons quanto o meu Libolo e meu Calulo?
Abraço