terça-feira, março 24, 2009

Lufada de ar fresco na comunicação social da Huíla?

Opiniões pertinentes julgam que a comunicação social pública na Huíla poderá ganhar uma lufada de ar fresco, com a exoneração do anterior director da comunicação social, João Rodrigues de Castro, quase vinte anos depois.

O anterior director era descrito como um homem alheio aos novos tempos que a “ média moderna” comporta. Entra em cena a veterana locutora da Rádio Huíla, uma estação do grupo RNA, Maria Rosa Gonçalves.
Apesar da escolha ter sido movida mais por critérios políticos do que habilidades técnicas para se estar a frente do curso, o único mérito a assinalar desta mexida do governador Isaac dos Anjos é exactamente a mudança de ares. Rosa Gonçalves é membro do grupo restrito e influente do MPLA na Huíla, conhecido por Comissão executiva do partido.
Antes, Rosa, viu o seu nome cogitado para ocupar o cargo de Directora da Rádio 2000, depois da greve de jornalistas e técnicos que culminou na saída da direcção de Horácio Reis, depois de um “ braço de ferro” de que não há memoria em Angola.
DESAFIOS
- Despartidarizar os órgãos de comunicação social, especialmente as Rádios, que são conotadas como “extensões” do MPLA. A Rádio 2000 cortou os debates (mesmo os de produção independente). Não permite a veiculação de qualquer informação de círculos conotados com a oposição ou críticos ao regime. A Rádio Huíla, da qual faz parte a actual directora da comunicação social, reabriu o debate, mas sem o esperado contraditório;
- Promover e dinamizar a criação do Clube de Imprensa da província, a semelhança de Benguela;
- Tratar por igual os jornalistas da média estatal e os poucos correspondentes da imprensa privada. Até hoje, os correspondentes das Rádio Ecclesia e Mais, anteriormente Voz da América e de jornais privados, trabalham praticamente na “clandestinidade”. Não são convidados a actividades oficiais. Se aparecem são olhados de esguelha e as suas matérias veiculadas a Luanda são obra da habilidade especulativa que campeia nas terras altas da chela.
- Trabalhar na articulação entre o governo e os jornalistas. A relação actual é descrita como sendo de total subserviência ao executivo local. No passado os profissionais eram chamados directamente á cobertura, muitas vezes sem se dar cavaco as direcções de órgãos;
- Melhorar as condições de trabalho e a cedência de viaturas as redacções;
O desafio é hercúleo para o bem da classe jornalística da Huíla, no Lubango e não só.

Os ganhos da visita de Bento XVI *

Quanto o avião Boeing 777 da reformulada companhia italiana Alitalia, que transporta o Papa Bento XVI, aterrar no aeroporto internacional 4 de Fevereiro em Luanda, milhões de angolanos poderão pensar nos três principais ganhos, na minha opinião, da primeira visita apostólica á África do Santo Padre, quatro anos depois do Cardeal alemão Joseph Ratzinger ter sido escolhido o Sumo Pontífice, o líder máximo da igreja católica.
Os ganhos serão, claro, nos capítulos religioso, com o seu forte alcance no passado e nos dias de hoje, e ainda, diplomático e político. No alcance mais local, observam-se os trabalhos de restauro em estradas e acessos a locais das celebrações pontifícias, fachadas de edifícios, paróquias. Muitas residências particulares também conheceram nos últimos dias pintura de fachadas, com realce para adjacente á paróquia de São Paulo.
No capítulo religioso, seguramente o mais notável nesta visita de três dias, confinada á Luanda, o Papa encontra uma Angola sem o mesmo impacto do fenómeno seitas, com por exemplo na Republica Democrática do Congo (RDC), para alem de outras dezenas de países por este continente.
A questão das seitas é várias vezes referida por figuras autorizadas da igreja católica em varias parte do mundo. Alguns cristãos baqueiam perante a avalanche de algumas igrejas tradicionais africanas, a par de outras confissões particularmente de origem sul-americana. O séquito Papal encontra, ainda, um país em que a igreja se apresenta com uma larga experiência no campo da reconciliação nacional e pacificação.
Os congressos pró Pace, as varias edições dos encontros conhecidos como “ semana nacional social” são apenas dois dos mais acabados exemplos do contributo da igreja na pacificação e no cobrir as feridas abertas durante o largo tempo em que irmãos digladiavam-se com armas na mão. Hoje, apesar de ainda haver a necessidade de se limarem varias arestas, o balanço é descrito como positivo e isto é um ganho nacional.
Na área diplomática podemos afirmar sem medo de errar de que esta é a mais importante visita ao país de uma alta entidade nos últimos 17 anos. O Papa tem uma dupla faceta: é chefe de estado do Vaticano e líder mundial da milenar Igreja Católica Apostólica Romana. Um balão de ensaio para os esquemas operativos de segurança desta magnitude foi observado recentemente com a visita á Angola de Raul Castro de Cuba.
Com o sucesso garantido da visita do Santo Padre, há em alguns círculos a convicção de que Angola estaria preparada para receber por exemplo um Barack Obama, dos EUA.
Há observações que apontam que as autoridades angolanas vão capitalizar bastante politicamente com a visita do Papa á Angola. Arrisca-se mesmo em se dizer que o período desta deslocação teria sido friamente calculado, devido a esta nova imagem que o nosso país está a passar para o mundo. Pelo facto de Luanda estar no centro das atenções, os jornalistas deverão mostrar aos quatro cantos do mundo uma Angola em mudança, em paz efectiva desde 2002, em crescimento em época de recessão das grandes economias mundiais, e claro um território profundamente cristão. Certamente a pobreza e o paradoxo com os milhões de barris explorados todos os dias também, poderá ser notícia, mais de cá o “recado” deverá ser o de muito trabalho por se fazer, mas com os pés firmes em época de colapso económico.
Esta leitura política foi desvalorizada na conferência de imprensa dada a bordo do avião pelo Padre Frederico Lombardi, o porta-voz do papa. Lombardi disse “ colocar claramente de lado este deslocação em clima pré eleitoral, rumo as presidenciais”.
* Texto de opinião assinado por Manuel Vieira e publicado na última sexta feira na edição do Semanario O País

terça-feira, março 17, 2009

Radio Ecclesia e a vinda do Papa

O director da Rádio Ecclesia, padre Maurício Kamutu,disse à Agência Lusa acredita que a visita do Papa a Angola vai ajudar a desbloquear as emissões da estação da Igreja Católica angolana para todo o país.
O director da Rádio Ecclesia, padre Maurício Kamutu,disse à Agência Lusa acredita que a visita do Papa a Angola vai ajudar a desbloquear as emissões da estação da Igreja Católica angolana para todo o país.

A Rádio Ecclesia, a emitir actualmente apenas para Luanda, de acordo com a lei em vigor, aguarda há 10 anos que o Governo permita a cobertura nacional. Em declarações à Lusa, o padre Maurício Kamutu, informou a Ecclesia já neste momento um prejuízo superior a três milhões de dólares (2,3 milhões de euros ao câmbio actual) em material nas províncias que se está a degradar por falta de uso.
"Os nossos técnicos que foram enviados para fazer a vistoria do material constataram que há muito material que já não serve", disse à Lusa o director da emissora, acrescentando que, caso seja autorizada a extensão do sinal, será necessário adquirir novos equipamentos.
Os equipamentos foram instalados em todas as províncias do país em 2002, mas a falta de uso causou a sua ruína, explicou o padre Kamutu. A Rádio Eclesia foi reaberta em Angola em 1997, depois do seu encerramento em 1977, no período pós independência, e até hoje "trava" uma luta para que o seu sinal seja escutado nas restantes províncias do país.
De acordo Maurício Kamutu, são vários os contactos que a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) tem mantido com as autoridades angolanas para que a situação seja "desbloqueada". "Infelizmente não tem havido nem seguimento, nem concretização do que se tem dito", frisou o director, acrescentando que a rádio e os cidadãos, que "a todo o momento questionam quando estará resolvida a situação", continuam na expectativa.
Maurício Kamutu acredita que a situação possa resolver-se com a visita, de 20 a 23 deste mês, do Papa Bento XVI a Angola, salientando que é necessário haver "boa vontade e aceitação da rádio". "Pelo que temos visto até aqui, acho que não há boa vontade. O que falta de facto é vontade política, porque não podemos andar atrelados a uma lei, que deve ser feita para satisfazer os cidadãos, tornar a sua vida mais plena e não torná-la mais difícil", referiu.
Na reabertura da rádio foi perspectivado que o seu funcionamento fosse igual ao do tempo colonial, com o sinal para toda Angola, mas depois de criadas as condições, com o apoio de embaixadas e organizações não governamentais, não foi permitida a extensão do sinal.
"A igreja fez tudo com o apoio desses amigos. Os materiais foram instalados nas províncias e quando quis começar a difundir o sinal para todo o país, o Governo pura e simplesmente, pelo ministro da Comunicação Social, disse que a Rádio Eclesia não podia difundir nesses moldes", explicou.
A criação da nova lei de imprensa angolana foi na altura a justificação apresentada pelo Governo para o impedimento. Todavia, já aprovada, a lei ainda não foi publicada e, por isso, ainda não foi permitida a difusão do sinal nas províncias.
"Entrámos nessa cantiga e esperávamos que a nova lei de imprensa pudesse dar alguma abertura em relação a isso, mas infelizmente não houve abertura nenhuma", disse.
A Rádio Eclesia, que nasceu como suporte para a obra evangelizadora da Igreja, era escutada antes da independência em países vizinhos como a República Democrática do Congo e a Namíbia.
Com mais de 80 trabalhadores, entre os quais cerca de 30 jornalistas, tem programas dirigidos aos jovens e mulheres e sobre a actualidade do país.
A informação é uma das apostas da Ecclesia e, os seus microfones são frequentemente abertos à oposição política e às organizações da sociedade civil, sendo também comum a denúncia de situações que envolvem injustiça social.
FONTE: Lusa

segunda-feira, março 09, 2009

RÁDIO MAIS JÁ EMITE NO HUAMBO*

A “Rádio Mais” ( RM) , um dos órgãos do grupo “Média Nova”, iniciou nos últimos dias emissões regulares na cidade do Huambo e arredores, um primeiro passo para ter emissões de noticias, entretenimento e música para a conhecida “cidade vida” e os seus arredores.

Fontes concordantes afirmam que a “Rádio Mais” está a cumprir um plano estratégico que visa a meio prazo estender as suas emissões á importantes cidades do país, numa extensão de sinal que já se vinha cogitando, antes da abertura desta nova rádio privada. As emissões experimentais da Rádio Mais no Huambo estão a ser suportadas, segundo apuramos, por uma força de trabalho contratada localmente, na sua maioria jovens jornalistas de outros órgãos de comunicação social, por um lado, e por outro por pessoas que têm apetência em seguir a carreira jornalística.
O plano para a disseminação das emissões da Rádio Mais para o interior, segundo as nossas fontes abrange ainda as localidades de Lobito e Lubango. As emissões irradiadas a partir do Lobito, onde já está em marcha a construção de instalações e a mobilização de quadros, serviriam para atingir o eixo Benguela e imediações do Kwanza Sul. Segundo as fortes do A CAPITAL, o processo está avançado para iniciar com as emissões com vista a disseminação de informação diferente da veiculada a pela Rádio pública. Note-se que Benguela, a considerada segunda maior praça eleitoral e possuindo o segundo maior parque industrial de Angola depois de Luanda, tem apenas uma rádio privada a Rádio Morena Comercial, detida por um grupo próximo ao MPLA. No espectro radioeléctrico local destaca-se ainda a Rádio Benguela e Rádio Lobito, bem como alguns centros de produção, estações todas vinculadas ao gigante Grupo Rádio Nacional de Angola.
Quanto ao Lubango, nos últimos dias uma equipa da direcção da Rádio Mais chegou ao terreno para abarcar no seu seio dezenas de jornalistas a embarcarem no mais novo projecto de Rádio autorizado pelo ministério da comunicação social. Segundo apuramos grande parte dos jornalistas que antes estavam vinculados a Rádio Comercial 2000 poderão abraçar a RM.
Recordo que a Rádio 2000 observou em 2006 uma expulsão de cerca de 15 jornalistas e técnicos devido a exigências para a demissão de um dos seus gestores, acusado de um mau desempenho nas suas funções. A RM no Lubango poderá estar instalada no bairro “ Santo António”, um zona descrita como de elite e estratégica para a emissão de sinais de Rádio devido a sua elevação. Esta área foi escolhida a vários anos pela TPA, para instalar o seu Centro de Produção na região sul.
Com a instalação da Rádio Mais fora de Luanda, a estação do grupo “ Média Nova” ultrapassa assim pela direita a sua congénere da Igreja católica, Rádio Ecclésia, que há cerca de cinco anos tem montados no interior equipamentos de ponta que serviriam de suporte a repetição do seu sinal ou emissões locais, com o concurso dos seus correspondentes, padres que coordenam o trabalho ou inclusive o recrutamento de outros profissionais das sinais em causa. REFORÇO NA GESTÃO DO CANAL A Rádio Mais recebeu nos últimos dias o reforço de Amélia Mendes para se ocupar do cargo de directora de informação. A jornalista estava anteriormente vinculada a RNA e a secção em português da “ Voz da América” em Luanda. Amélia Mendes, foi uma das fundadoras da Rádio Luanda. Profissional de créditos reconhecidos, principalmente na área social, Amélia será a coadjutora de José Marques Vieira, director geral, para se ocupar dos conteúdos informativos da estação, descritos actualmente como muito aquém da expectativa de alguns ouvintes da capital, tendo em conta a dinâmica das suas concorrentes directas, nomeadamente a Rádio Luanda (entretenimento, animação e noticias) e a Rádio Ecclésia (notícias, informação, debates e educação cívica) as lideres de audiência na capital, segundo alguns estudos. DE QUEM SE TRATA? A Rádio Mais, se define como um canal comercial de vertente generalista. Faz parte do Grupo Nova Media, um sociedade anónima apontada como sendo suportada por figuras próximas ao presidente da Republica, entre elas a sua filha mais velha, Isabel dos Santos, e o seu ministro -chefe da casa militar, Hélder Manuel Vieira Dias “ Kopelipa”.
A estação emissora, que transmite nos 99.01 MHZ terá sido “colocada” estrategicamente entre duas das estações com maior audiência na capital, Ecclésia (97.5 MHZ) e Rádio Luanda (99.9 MHZ), numa “tirada de mestre” que tem sido de mais valia para a garantia do seu espaço. Tem instalações próprias na zona nobre do “Nova Vida” em Luanda, com salários principescos, segundo as nossas fontes. Segundo o seu sítio na Internet, A Rádio tem um caudal de informação na edição da manhã, com notícias, trânsito, revistas de imprensa, desporto, música, reportagem, ecologia, entrevistas, etc. a estação transmite relatos da Liga de Futebol português em parceria com o Rádio Club Luso e noticias em português com produção da BBC. Fazem parte do grupo Média Nova, para alem desta Rádio, o jornal o País, a revista Vida e a TV Zimbo.
* Artigo publicado no Jornal A Capital.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Relação entre governantes e governados: como tornar efectiva a cultura de prestação de informação?

A informação é hoje um dos recursos de uma gestão transparente. Onde não há transparência falta informação e vice-versa. A gestão e a transparência caminham juntos.

Para quem gere uma empresa, algumas das informações devem ser baixadas aos seus trabalhadores. Para quem gera um município ou uma província, o grau de responsabilidade é ainda maior.

Países há em que as administrações e os governos prestam regularmente um conjunto de informações importantes a população. Para alem de conferências, há também o recurso á imprensa como transmissor cabal da informação entre governantes e governados, numa interacção necessária.

Por cá, de um tempo a esta parte, tem-se notado com regularidade que tem sido pouco profunda a prestação de informação sobre actos públicos, administração de verbas e sua gestão e as formas de levar avante certos projectos a favor das comunidades de base. É pertinente a pergunta: O porque de tanta falta de informação? A ausência reiterada em debates parece ser uma das faces mais notadas nesta equação.

A nível superior, no entanto, observa-se inclusive uma opacidade na divulgação de informação sobre os gastos do estado, as reservas financeiras angolanas no exterior e mesmo programas sobre água e luz, ponto de situação e sobre eventuais erros.

Ilustra-o uma descortesia que tende, ultimamente, a arraigar-se: a falta de comparência dos responsáveis aos programas interactivos da Rádio Ecclesia, aos quais são convidados em boa e devida forma. Não aparecem, não avisam a tempo da falta ou nem dão uma justificação posteriormente.

Os ouvintes consternados têm condenado esta postura, que abeira à irresponsabilidade, à arrogância, ao situacionismo e demais vícios da mesma índole, na vertigem da imunidade de que se ilude certa nomenclatura.

Reconheça-se, no entanto, que alguns ministérios já divulgam mais informação em sítios na Internet. É um esforço louvável, mais ainda – convenhamos - , longe de satisfazer a necessidade de pesquisadores, jornalistas, estudantes e académicos.

A lei de imprensa, obriga a gestores públicos a felicitarem o acesso de jornalistas a informações relevantes sobre os trabalhos que executem. Não será que é real o pensamento de alguns jornalistas, em como tem havido uma espécie de tábua rasa a esta imposição legal? Será mesmo falta de cultura ou ainda os resquícios do passado de partido único?
Mentalidade nova, adequada à era da normalidade institucional, iniciada com o pleito eleitoral, impõe-se neste campo.
Para os que não sabem, a legalidade exige-o. Pois, no artigo 19º, ponto 3, a Lei de Imprensa estipula o seguinte:
«As entidades públicas têm o dever de assegurar o acesso às fontes de informação com vista a garantir aos cidadãos o direito a serem informados, desde que as informações solicitadas não estejam abrangidas pelo disposto no número anterior».

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Os montes lançam um ar profundo sobre o Lubango

Rádio Huíla volta aos debates

Nas últimas semanas um “spot” publicitário dava a boa nova aos ouvintes da Rádio Huíla (que são certamente muitos no Lubango, devido a crise de identidade da Rádio 2000).
Eram os regressos os debates na Rádio Huíla, a tal maior estação do sul de Angola. Quantidade ou qualidade?

O anúncio, na conhecida voz de Manuel Esperança ( meu velho companheiro na Rádio 2000 e Voz da America) , indicava que os debates estavam de volta ao canal. Uma boa nova. O próprio acabou por moderar o debate, mas sem o contraditório, falando sobre o sector da saúde na província.
Depois do repto do governador sobre o papel da média na crítica e ajuda ao executivo através da auscultação geral da sociedade, este é o primeiro sinal de um certo arejamento da média huilana. Espera-se que isto seja seguido! As duas rádios devem ser aguerridas, fortes, criticando, elogiando, dando voz a todos e apontando a solução aos graves problemas que a província vive.
É claro que os interesses corporativos, os interesses de grupos e a tendência absolutista de certas camadas sociais em se assenhorarem da média, podem afectar os objectivos mais nobres dos nossos colegas nas sulistas terras em plano.
Entre os anos 1999 e 2002 fomos pioneiros numa forma “nova” de dar a sociedade voz. Debates como o “Entre Nós” e “ Com Peso e Medida” em que mesmo em tempo de guerra, o contraditório era possível.
Debates de saudade, pois deve haver continuadores desta forma de dar voz aos sem voz (muitos no Lubango), e diversificar com os fazedores de opinião ou aqueles facilitados pelo mediatismo frequente (poucos, felizmente).

Anjos acaba com “eternidade” ?

O governador da Huíla tem manifestado nos últimos dias uma clara propensão ao fim de alguns postos considerados vitalícios, na gestão local, nas administrações municípios e em áreas consideradas estratégicas para a província.

A intenção já manifestada por Isaac Maria dos Anjos é a de colocar uma espécie de “ ordem no circo local”. Sente-se que muita gente “arvora-se” em postos que deviam ser rotativos. Este é uma pratica recorrente no interior, o que vem conformando vícios de forma e de estar por parte de vários gestores. O governador da Huíla, desde Outubro, parece ter estudado bem a lição.
Fontes na Huíla falam de alguns sectores algo de mudanças:
a) Administrações municipais: Caconda, Matala (segunda maior praça económica da província) e Chipindo;

b) Direcções províncias da agricultura e desenvolvimento rural; energia e aguas; Comunicação social; educação, cultura e ciência e tecnologia; assistência e reinserção social;

c) Direcção de planeamento e estatística do governo provincial da Huíla; d) Gestão de algumas unidades fabris;

A nova dinâmica do governo da Huíla, segundo algumas fontes, já foi notada nos últimos dias quando Isaac Maria dos Anjos optou por visitar as províncias do nnorte. Segundo se conta gente há que denota dificuldades em acompanhar a velocidade com que as visitas são realizadas.
FOTO: Manuel Vieira e Morais Kanamwa, entrevistado Albino Malungo, na altura ministro da Assistência e Reinserção Social ( actual governador do Huambo). Ao lado está Ramos da CRuz, antigo governador da Huíla.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O problema dos Gambos (*)

" Nós que vivíamos na altura o problema da terra nos Gambos, pensámos assim. Que a terra, antes de ser um factor de desenvolvimento, deveria antes ser gerida por uma política. E essa política tem que ser plasmada na Constituição.

Temos que contribuir igualmente para que a visão dos Mungambues, (a visão das pessoas que vivem nos Gambos), Mundimbas, os pequenos comerciantes, os Khoi-San, as mulheres, os homens, os pastores, etc., etc. se reflicta nessa Constituição. Por isso mesmo vamos tentar colocar o nosso pé por dentro, antes que os políticos agarrem o espaço público e se assenhorem dele.
Começámos a abordar com os mais velhos: “Vai-se fazer uma carta e essa carta vai conter o que é que o Tchokwe pensa, o que é que o Kwanhama pensa, o que é que o Muakavona pensa, o que é que o Mundima pensa, o que é que um comerciante que está na povoação pensa, o que é que um pastor que cuida do seu gado pensa. Então essa carta tem que ter a visão desses todos”.
Os velhos disseram: “Vai haver essa carta? Por favor, nós estamos dispostos para sermos escutados porque desde o tempo colonial que nós não somos escutados, aliás quando querem nos escutar é só para criarem-nos problemas. Quando andaram cá a escutar-nos foi quando começou a guerra de 40-42 contra os Mucubais. Vieram para cá fazer inquérito de saber como é que é a nossa relação com o colono e logo a seguir guerra. Depois veio 75 e houve confusão. Depois vieram sul-africanos.
Nós nunca fomos escutados sobre a nossa vida, sobre a nossa cultura. Nós estamos disponíveis.” Fizemos uma grande mobilização e para não ficar só com os Gambos, auscultámos comunidades também dentro da cidade, comunidades do Kipungo, da Matala, do Namibe e fomos até ao Cunene recolher também algumas amostras. Fizemos uma pesquisa, para que as pessoas colocass
em no papel a sua visão sobre o país, as suas inquietações, os seus receios.
Isto tudo colocaram no papel. E para apresentar o resultado dessa contribuição, nós preparámos então a Jornada Constitucional. Começámos a mobilizar sectores dentro do parlamento. Fomos ter com o Sr. Dino Matrosse, conversámos com o Sr. Bornito de Sousa, como o partido no poder, deveria ser mobilizado em primeiro lugar para acompanhar o processo.
O Sr. Dino Matrosse prometeu que iria enviar 5 parlamentares do MPLA para irem para lá, para abordarem na Jornada Constitucional. Mas, politicamente estávamos adiantados demais. Houve um sector do MPLA que teve medo. Os cinco deputados do MPLA nunca foram ao Lubango e na véspera da realização da Jornada Constitucional o Ernesto Bartolomeu sai com um comunicado onde mais ou menos dizia que o governo não se revia na Jornada Constitucional do Lubango, porque a recolha de opiniões somente aconteceria depois do rascunho da Constituição estar pronto. Eu estava à frente do écran e comecei a tremer. Os convidados tinham sido todos mobilizados, de todos os partidos políticos. As comunidades mobilizadas. Os autocarros alugados.
Os mais velhos, todos, do Cunene, Namibe, Gambos, Kipungo, Matala, da cidade, estavam todos mobilizados. Reunimos de emergência e reflectimos: “O governo não se revê nisso mas não disseram que não iriam apoiar”. Os nossos amigos parlamentares da oposição moveram-se, mobilizaram os seus apoios em Luanda, avisaram o governo provincial da Huila que iam à Jornada Constitucional e este tinha que mobilizar a sua estrutura protocolar para os apoiar. Foi a nossa salvação. Os parlamentares do MPLA não chegaram, mas esteve lá o pessoal do Fpd, PAJOCA, PDP-ANA, FNLA. Quase todos os partidos estiveram lá. O curioso é que a UNITA também não foi. A UNITA quando soube que o partidomaioritário não ia, e sabendo-se que se estava em plena guerra, também não foi. Não imaginam a alegria e o sentimento de alívio que nós tivemos quando se via uma mamã dos Gambos, ou da Huila com os seus atavios sentada lado a lado com a mamã Anália de Vitória Pereira. Não imaginem a alegria que isso nos trouxe. O Dr. Alexandre Sebastião dum lado, o soba dos Gambos do outro. Alguns representantes de algumas ONG mediram a situação e acharam que o ambiente estava. Mas quando viram a delegação que veio de Luanda decidiram também ir. Foi uma experiência interessante, de aventura, mas que nos fez pensar que poderiamos fazer coisas maiores.
Nós vivemos num momento em que estão em curso várias dinâmicas do ponto de vista social e político. As pessoas tinham muitas expectativas antes das eleições legislativas de 2008, e conversando com algumas, dá a entender que a auto estima, a aura e o entusiasmo que tinham pelas eleições está a decrescer. Isto pode ser não muito bom para motivar as comunidades a participar.. Acompanhei há dias um interessante e acalorado debate na Rádio Ecclesia que foi animado pelo Reginaldo Silva, os Drs.Marcolino Moco Fernando Macedo. O Reginaldo Silva dizia claramente que não estava optimista, porque à partida qualquer iniciativa da sociedade civil de fazer parte de um processo de elaboração da Constituição, como acontece em África, o grupo que manda vai dominar o processo constituinte para salvaguardar os seus interesses. Eu concordo com essa perspectiva mas eu que estou ligado com comunidades a quem é preciso transmitir a esperança, devo pensar e agir doutro modo, contribuindo para o exercicio da cidadania que contribua para a mudança a longo prazo.
O problema nosso (e ligado um pouco aos partidos políticos), dizia muito bem o Marcolino Moço, é querer investir no poder. Deve-se é investir na abordagem da política a longo prazo. Mesmo que as nossas visões não estiverem reflectidas neste processo constituinte, se nós continuarmos a mobilizar o povo, construímos devagarinho a pedra da participação política. Não vamos ganhar desta vez. Muita coisa que gostaríamos que estivesse contemplada no projecto constituinte não vai estar. Vai acontecer o mesmo que aconteceu com a lei das terras. A centelha que incendiou o processo de abordagem da lei da terra veio dos Gambos. Nós nem tínhamos consciência, nem ideia de que o que estávamos a começar com algum entusiasmo juvenil ia desencadear a reflexão sobre as terras. Mas ainda assim a questão das terras é muito grave em Angola. Aquelas comunidades que não tomaram medidas preventivas naquela altura, hoje têm problemas muito graves de ocupação de suas terras. Também, para o processo constitucional precisamos de rever como é que nós elaboramos os nossos programas de educação cívica para as comunidades. Deveríamos abordar a questão da recuperação da auto estima das comunidades. Deveríamos conceber programas de desenvolvimento educacional informal mas na perspectiva da libertação. Para quê? Para que nós consigamos devagarinho abordar os traumas coloniais e os preconceitos anichados no recesso do nosso subconsciente colectivo.
Por tudo isso temos que começar primeiro a enfrentar o fantasma colonial e pós-colonial que está nas nossas cabeças e que se foi sedimentando. Temos que começar a abordar a cultura do medo que se instalou e que inibe iniciativas e alguns interpretam a necessidade de votar para quem está no poder como salvaguarda de suas vidas e das das suas famílias, mas que não passa da manifestação colectiva da cultura do medo: “é melhor votar no que você conhece. Se você não vota naquele que conhece, você não sabe o que vai acontecer!”
Na Huila circularam panfletos a dizer – “cuidado, se você votar no desconhecido, você vota na falta do sal”. Ora a falta de sal se via nos tempos em que havia guerra, em que as populações estavam sitiadas. Essa cultura do medo está connosco. Temos que começar a pensar numa educação libertadora. A sociedade tem que começar a pensar a sério num programa de abordagem dos efeitos pós traumáticos que o conflito deixou.
Quem vai ao Kuito nota isto. Estão ali presentes através de vários modos, agressividade, emoções, apatia, etc. Um dia temos que ter uma agenda para abordar esse passivo todo. Muitos partidos políticos, incluindo o partido maioritário da oposição, apanharam um choque traumático a partir dos resultados que surgiram e estão numa apatia neste momento. Mas a sociedade tem que animar as comunidades.
As grandes igrejas estão mais ou menos cooptadas ao nível das lideranças. Faço parte da comissão do fecho do COIEPA, é muita pena que digo isso porque o COIEPA que foi criado para poder abordar as questões de paz que não terminam só com o fim da guerra, é o mesmo COIEPA que os líderes mandam fechar.
Infelizmente sabemos como é que as coisas lá dentro são, que alguns até apareceram com os nomes como propostas para deputados, outros recebem carros, outros recebem outros benefícios, outros estão à espera – “se o outro recebeu, deixa-me encostar lá também”! Toda essa cultura persuasiva (e quem está no poder gere tudo isso muito bem a seu favor), todo esse clientelismo é persuasivo a tudo, fazendo que a sociedade tende a se inibir. Quando passei pelo Huambo encontrei uma realidade desoladora do ponto de vista de exercício das liberdades fundamentais. Um grande número de académicos estava cooptado nos comités de especialidade, limitando a liberdade que os caracteriza como independentes.
Estamos num quadro que realmente, conforme diz o Reginaldo Silva, não anima a participar. Mas agora, se nós líderes das comunidades ficarmos parados, não vamos contribuir para aumentar, maximizar a democracia. E é só assim realmente que vamos ser os cobradores do programa do partido que ganhou e que mereceu a confiança da maioria dos angolanos. Cobrando é
pela cidadania, é pela participação e é uma participação
a longo prazo. "

* Padre Jacinto Pio Wakussanga. Mais dados em http://www.quintasdedebate.blogspot.com/