quarta-feira, outubro 11, 2006

A retoma

Acredita-se que os blogs criam dependência. Discreta, é certo, mas dependência. O cidadão comum – homens, mulheres e crianças, que vamos achando diariamente se quisermos - ao descobrir esta ferramenta, exorcizou alguns fantasmas de comunicação. Problemas que vivemos todos os dias pelos motivos mais complexos que se podem supor. Eu não fujo à regra. Excluindo os personagens que fazem disto uma forma de trabalho, outros porém, compenetram-se na divulgação e no partilhar das coisas mais incríveis. Anónimos puros que rebentaram fechaduras das escrivaninhas onde tinham guardado papelinhos segredados de imenso valor artístico e pessoal. Tanto assim, que até os próprios meios de comunicação social já têm um espaço reservado aos seus próprios blogs no aproveitar do andamento deste fenómeno. Mas esta brincadeira também cansa, satura, mesmo sem ser deprimente. Muito mais quando não se sabe do que falar ou expor. Nas centenas, para não dizer milhares de blogs que já visitei durante estes quatro anos para onde sigo, muitos deles ficaram pelo caminho no primeiro mês de exposição pública. Outros, nem tempo tanto duraram. Deixando de fora os clássicos, os mediáticos, os ícones da classe jornalística, o que sobra? Sobram mais milhares a que é impossível aceder por falta de tempo. Por isso, aí vou eu! Abram-se-me as portas e janelas das palavras que procuro. Adaptado do BLOG ( http://edynet.blogspot.com/

terça-feira, outubro 10, 2006

UMA ARTE EM MORTE LENTA

Pode-se esperar, de facto, alguma coisa dos músicos da Huíla ? Esta pergunta só muito dificilmente teria resposta nos dias de hoje. Quem anda a matar em “câmara lenta” esta arte nas terras altas da Chela? Talvez fosse esta a pergunta oportuna a ser feita... Sem questionar ou apontar soluções para a saída do marasmo ( como de resto é habito na nossa terra, infelizmente) uma noticia da ANGOP esta semana lançou mais uma vez o debate sobre a cultura. Lá dizia a noticia que “ O músico Belchior Ngando Calueyo "Anjo Blex", de 24 anos de idade, venceu, neste final de semana, a fase provincial o Festival da Música Popular Angolana "Variante" 2006, realizado na cidade do Lubango, província da Huíla ”. A noticia acrescenta, vibrante “ Com o tema "Tenho Esperança", do estilo kilapanga, Belchior Calueyo, que vai representar a Huíla no festival nacional a realizar-se em Novembro na cidade de Cabinda, somou 173 pontos.” Jovens músicos sem apoios, eles correm a muito anos uma “ indefinida maratona”. Lutam pelos seus próprios meios para cantar e encantar. Vez sem conta trabalham sem meios. Estes, comprados pelo departamento de cultura, vão servido para outras coisas. Que saudade do furor daquele tempo em que o Adó André, o falecido Joca Gaspar e os “ Pacíficos” ( uma das melhores bandas de sempre lá do sitio. Ficaram nos anos oitenta bem colocados num top dos mais queridos.... ).... Os tempos, infelizmente, mudaram. Tal como mudou também a musica....

MCK: Proibido?

Fonte próxima ao rapper Mc K confirmou esta semana ao site “ www.club-k.net “ que o autor do refrão: “Eu sou a maratona da sexta feira, que te garante o voto”, foi expressamente proibido, domingo último, de proceder com a venda do seu novo trabalho discográfico em frente a portaria da RNA. Segundo a fonte: “em ultima da hora, proibiram lhe de vender o CD na portaria da RNA”. As razões do acto de acordo com o informador, deve-se a “motivos de força maior” afirmadas pelo radialista Mateus Cristóvão, “o pombo correio” que transmitiu pessoalmente a mensagem ao rapper. “Sem argumento ele teve de abandonar o local partindo para as mediações do cine Atlântico” disse a fonte acrescentando que: “Pelo menos não foi erro de calendarização, porque Ninguém vendeu na RNA, ontem. O motivo foi outro que só o Mateus Cristóvão sabe”. Resta acrescentar, citando um musico da Costa do Marfim “ meu país vai mal” FONTE : club-k.net

quinta-feira, outubro 05, 2006

Rádio Bluff

Foi uma rádio pirata do Lubango. A ousadia de um grupo de rapazes, em que me incluo, durou apenas três escassas duas semanas. Corria o ano de 1995. Um rapazote na altura – hoje homem feito – de nome João Carlos, hábil em lidar com electrónica teve a sorte “ingrata” de criar uma espécie de transmissor de ondas hertzianas. (GARANTO QUE TECNICAMENTE, AINDA, NÃO SOU CAPAZ DE EXPLICAR O QUE REALMENTE SE PASSOU…). Abismado com a descoberta, o jovem achou por bem emitir música. Com a fama espalhada pelo bairro e depois pela cidade, da música passou-se para spots criados na hora e palavras de animação. Com se pode notar a nossa a ambição ia crescendo. Posso garantir que nós sabíamos pouco sobre formas de regrar o cenário radiofónico. Tínhamos todos menos de dezasseis anos. Todos nós andávamos a começar o ensino médio. A nossa rede de amigos tinha uma vantagem: todos amávamos, incondicionalmente, a rádio. Com o passar dos dias a fama da “ RADIO BLUFF” aumentava. O raio de acção era escassos duzentos metros, mas suficientes para fazer furor nas terras altas da Chela. As ondas eram irradiadas do bairro Lucrécia, no quarto do Joca. Mas o império foi desabando. A direcção provincial de comunicação social mal descobriu, arranjou polícias para encerrar o nosso “cantinho”. Apreenderam todo material. Até k7s. Felizmente o assunto teve repercussão na imprensa local. Para contentar os jovens quem manda decidiu atribuir aos ousados jovens um programa de uma hora da Rádio Huila. O programa tinha a obrigação de ser grava e segundo de perto por um mais velho daquela estação. Começamos assim a trilhar os caminhos do rádio jornalismo. Todo o controle era pouco para jovens tido como atrevidos… Infelizmente alguns não seguiram o jornalismo. MANUEL VIEIRA PS: HOMENAGEM OS CAMARADAS QUE COMIGO DESPERTARAM O SONHO DA RADIO: JOÃO CARLOS TEIXEIRA, MACHEL “ ZITO” DA ROCHA, GABRIEL NIVA, CARLOS PIO, NADIA CAMATE, AUGUSTO JOSÉ, PAULA CRISTINA, CARLOS MARCOS, GISELA SILVA. Um grande abraço e felicidades etc.

Rádio Teresiana

Se vincasse seria, seguramente, a primeira rádio comunitária de inspiração cristã de Angola. Mas a guerra tudo levou… Na década de noventa, uma congregação católica, madres Teresianas, formaram freiras e adquiriram material para “fundar” uma estação radiofónica no interior do país. O objectivo era levar informação a quem ais precisa. Os equipamentos foram montados. O pessoal formado queria corporizar o projecto, mas num piscar de olhos o que pretendia transformou-se numa névoa de fumo, escombros, buracos e muito prejuízo. Era tempo de guerra. Não se sabe quem, mas foram lançados obuses contra a eminente rádio “Teresiana”. O local escolhido é fantástico. È entre o Huambo e o Bié, numa zona chamada “Monte Belo”. A zona apurada para as instalações da estação de rádio é muito próxima da estrada principal que pude visitar a dois anos. Uma área tipicamente rural e como todo o interior de Angola uma rádio, por mais rudimentar que seja, faz falta. MANUEL VIEIRA

segunda-feira, outubro 02, 2006

Salteadores?

Mais uma vez uma viatura foi surpreendida com disparos de armas de fogo, em plena viagem. Desta vez tratou-se de um Toyota Hiace, em trabalho de taxi, improvisado. O numero exacto de passageiros não foi precisado. Mais uma vez isto deu-se no troço Lubango/Huambo. Mais uma vez o susto fez recordar o passado, quando viajar pelo interior do país era quase um suicídio. Depois da paz, aos poucos a circulação de pessoas e meios ganhou “fôlego”. Mas, os chamados bandos errantes faziam tudo para espoliar quem se aventurasse pelas estradas de Angola. Já houve mortos, feridos, carros incendiados e haveres desaparecidos! Sobre culpados, havia promessa das autoridades para a sua captura. Desta vez, um dos três salteadores foi “detido” ( ou será retido?) pela população. O homem foi atirado para os calabouços da policia que agora tenta encontrar o resto da quadrilha. Com os “ventos da paz” soprando há quatro anos, a noticia, divulgada pela Radio Ecclesia – emissora católica de Angola, soa a surpresa com um misto profundo de desilusão. Até quando salteadores nas estradas do interior de Angola? Quem como eu palmilhou a zona deste ataque ( a meio caminho entre o Lubango e o Huambo) só pode lamentar a desdita de mais alguns compatriotas, seguramente, ávidos em terem paz real na sua própria terra. E claro, é hora dos cidadãos andarem pelo país, sem a preocupação de colidir com homens armados, com espingardas em riste, para roubarem os poucos haveres que o povo encontra para driblar a pobreza. Espero, contudo, que os tiros não estejam de volta á Huila....

sábado, setembro 30, 2006

O papel da rádio em Angola. Por Margareth Nanga

A Rádio Ecclesia é sem dúvida, o meio de comunicação que muito disse e diz à liberdade de expressão em Luanda, uma vez que ainda não tem permissão para emitir nas restantes 17 províncias angolanas. Esta estação reiniciou as suas emissões em 1996 mas, é em 1997 que dá os grandes passos e promove as primeiras emoções nos corações do público angolano, com a emissão de programas e jornais. A estação Católica não é só um novo meio, uma alternativa (em relação aos meios estatais), é antes de tudo um meio de comunicação que procura analisar “o outro lado“ das questões que os factos com relevância social e noticiosa fazem despoletar. Lado este, que é muitas vezes ofuscado ou intencionalmente omitido por qualquer razão que não seja a defesa do interesse público da comunidade. A Rádio Ecclesia é a estação da voz e vez dos que não têm espaço em nenhum outro meio de comunicação falado. A Emissora Católica ajuda hoje, na abertura de horizontes nesta sociedade, onde cada vez mais, os seus citadinos procuram sair do fundo das águas do silêncio que desespera. Esta assume corajosamente a sua missão e avança sem receios de um sistema que procura calar todos os que são contrários aos seus ideais. Sendo a primeira rádio com um sistema digital avançado em Angola e a única que o usa ao longo das suas emissões até ao momento, a rádio de confiança como também é conhecida, procura construir uma grelha de programas e informação com a maior qualidade possível e sempre com o intuito de levar à população o facto, a verdade, análise e opinião dos que a podem dar fazendo-o bem. A Ecclesia foi a pioneira dos debates informativos no mundo da rádio em Luanda. Com emissão ao sábados das 10h as 12h, o debate informativo é o segundo maior espaço de audiência da Emissora, na senda dos programas de carácter informativo. O fórum é o outro espaço de opinião. Neste os principais comentários são dos ouvintes, os chamados “comentaristas do quotidiano”. Neste dois espaços, os interlocutores são chamados a uma desafiadora e nobre missão: “pensar uma nova Angola”. Se este pensamento não é novo, e se daí não saem novidades para um país, a verdade é que sempre conseguiram suscitar fortes diálogos, com muitas críticas dirigidas à governação e aos seus governantes. Todos os sábados, segundas, quartas e sextas são dias de “desabafar”. Quem também lucrou muito com o surgimento da Rádio Ecclesia, foram os partidos políticos da oposição, não porque tenham um espaço assegurado na rádio mas, porque a Ecclesia dá oportunidade a todos para se expressarem, de acordo com a circunstância e importância sem deixar de ser apartidária. Com a Ecclesia, surgiram os jornais semanários com a mesma linha de actuação. Com isto, aos poucos, a imprensa passou a ser mais aberta, atrevida e, às vezes, “exagerada”. Seguiram-se críticas, rumores e até pronunciamentos oficiais de que a Rádio Ecclesia “era uma rádio de terroristas”, uma rádio contra-governo que só critica e nunca sugere, há até os mais ousados que a rotularam como sendo a “Rádio da Oposição”, “Rádio da Unita”, o maior partido da oposição. Com estes adjectivos, cada vez mais foi ficando difícil para a Emissora Católica ter fontes oficiais, os canais de informação no governo foram ficando cada vez mais fechados. Hoje, com quase 10 anos de reabertura, a Ecclesia continua a caminhar numa Angola onde já são visíveis, os sinais de uma sociedade pluralista. Hoje, é (também) graças à Ecclesia que cada um com a sua cor partidária, ou sem qualquer uma delas, consegue opinar e fazer da sociedade angolana, um sítio onde a diversidade pode “conversar” e andar. COLABORAÇÃO NO IGREJA LUSÓFONA O programa Igreja Lusófona tem o seu espaço ao domingo. A sua emissão em Angola passou por várias dificuldades técnicas que sendo superadas foram reiniciadas as emissões. A colaboração com este programa começou pouco depois da reabertura da rádio, tendo passado por ele jornalistas como, Gustavo Silva (actual Director Executivo da Ecclesia), Alexandre Cose e Cornélio Bento. Penso que desde o passado até ao momento, muita coisa mudou na relação Igreja Lusófona e Ecclesia. Desde as equipas que foram sendo substituídas (dum lado e do outro) até ao dia e hora de emissão do programa na grelha da rádio Ecclesia. As grandes dificuldades estão principalmente nas informações que nem sempre se tem acesso. Conseguimos ter de acordo com o tema e os problemas com a Internet, o que nem sempre facilita a emissão do programa em Angola. Mas, para além dos horizontes das nossas terras, e bem para lá do Oceano Atlântico esperamos que a nossa voz se faça ecoar para juntos fazermos a nossa parte, neste mundo, que muitos querem melhorar. ( Trabalho publicado num livro do Programa " Igreja Lusofona da Radio Renascença de Portugal)

sexta-feira, setembro 29, 2006

Tômbwa, entre as dunas e a planta rara

Um dos momentos áureos da comissão instaladora da juventude ecológica de Angola na região sul( Huila, Namibe e Cunene), foi a realização de uma excursão exploratória das potencialidades turísticas da Huila e do Namibe. Corria o ano de 1999 e lá estávamos nós, prontos para dias de aventura e observação. O espírito da livre aventura, parece que andava já encubado em nós. Com carro alugado pusemo-nos na estrada. Seriam mais de duzentos kms de estrada, até chegar próximo da foz do rio Cunene no município Namibense do Tômbwa. Depois de uma paragem de algumas horas no Namibe, pusemo-nos, deserto a dentro para o município que fica no meio de dunas. São 93 Kms a sul do Namibe, numa zona deslumbrante! São areias, montes, repteis e claro a “ mirabilis”! Uma das imagens que guardo até hoje da vila do Tômbwa, é o duelo entre o homem e as areais. È que o deserto teima em continuar a sua marcha rumo ás zonas habitadas. Soterrar tudo e todos parece ser o lema. Mas os homens não podem aceitar, mesmo com dunas a atingirem mais de dois metros de altura! As plantas lançadas á terra num projecto de local arborização dificilmente chegam a idade adulta, para cumprir o seu papel de cortina florestal, porque a falta de água acentua a sua “sede”. Mas a batalha entre o homem e o deserto vai continuando, qual o frasinho David tentado derrotar o gigante Golias e o seu exercito de dunas, areais e ventos fortes soterrando tudo a volta, inclusive um cemitério. O campo santo foi assim revestido de uma nova camada de areia. A quem dissesse que os mortos foram duas vezes sepultados. Manuel Vieira

quinta-feira, setembro 28, 2006

O teatro nas radios do Lubango

Os “ Olonguende”, caminhantes em Português e os “ Kandimbas (coelhinhos) de Santa Cecília”, são dois dos mais representativos grupos de teatro do Lubango. Muito mais por carolice e hobby, é que eles vão resistindo. Faltam-lhes apoios, mas os jovens resistem os intempéries da vida. O teatro como forma de manifestação cultural, ganha no Lubango uma dimensão maior. Com o sector musical de rastos, a pintura e a escultura “respirando ofegante”, só mesmo o teatro consegue dar o ar da sua graça para não lançar para as “calendas gregas” uma das melhores e expontâneas formas de produzir uma bela arte. Para o “ boom” que se regista nesta disciplina de arte em muito contribui a radio, alias não é de hoje. Data de 1999 ou ano 2000 que realizadores, especialmente da comercial, optaram por preencher alguns dos seus espaços com diálogos sobre o teatro, encenações ao microfone, e como isso, claro, a massificação da actividade através da atribuição de bilhetes aos ouvintes, em troca de publicidade para as peças a serem exibidas nas improvisadas salas de teatro. O destaque ia para a sala da associação “ ADRA”, a custo zero. Ora, seis anos depois, visitando o Lubango pude constatar que o teatro foi a única coincidência em dois programas de uma manhã de radio. Era sábado e como se não bastasse no mesmo horário, o espaço 9H –10H. Na comercial, Radio 2000, o programa matinal era preenchido com a conversa com um actor do “ Olonguende”. Já na Radio Huila, o director artístico dos “ kandimbas”, que pertencem a missão católica do Lubango, debitava momentos de uma peça sobre HIV Sida e ao que parece tinha muita aderência. E assim caminha ( va) o teatro no Lubango, pelo menos na radio. Mas fiquei sem saber se eram os grupos que mais espaços conseguiram nas rádios ou eram os realizadores que se renderam ao sucesso desta bela arte.... Manuel Vieira

CHIPINDO: Na frente de guerra ( 2)

Na visão estratégica da altura a tomada de assalto deste município era um ponto muito importante. Chipindo, no estremo leste da Huila dá acesso rápido ao Kuando Kubango, ao Huambo e a ao Bié. É um dos três municípios que constituíam o chamado “ corredor do leste”, um conjunto de três municipalidades que facilitavam ampliar o esforço de guerra tanto para sul, como para a planaltica zona central do país. Com Chicomba, Jamba Mineira, Chipindo é composto de carreiros, picadas em planícies e outras zonas que facilitam a vida de uma guerrilha. Estes são pontos trazidos a lume numa serie de reportagens, que acompanhei pela net, do jornalista de guerra Stefan Smith escrevendo na altura para um jornal Português. E neste dia do longínquo ano de 2001, testemunhava, eu próprio, as imagens idílicas na altura trazidas ao publico por este experimentando escriba que descrevia minuciosamente tudo o que observava na região, com a diferença de que via as coisas do lado dos guerrilheiros. Chipindo era, pois, a sombra de si mesmo. Ao sobrevoar a vila naquela manhã, pudemos observar rios e regatos, bem como, a destruição das pequenas infra estruturas que o colono deixou no terreno. Até as portas foram arrancadas para aquecer as fogueiras dos soldados! Com o escurecer um cenário fantasmagórico tomava conta da zona. O capim fazia parte do cenário. A mendicidade também. Do poente avistamos os gigantes do ar de regresso. Os últimos minutos nesta “frente de guerra” serviram para memorizar todo um cenário! O regresso ao Lubango estava previsto para as 17, mas a viagem de volta a cidade só aconteceu as 18 horas. Os 500 kms foram feitos em cerca de uma hora. Os helicópteros iam cheios. Á comitiva inicial foi acrescentada mais um grupo de crianças. Os petizes iriam para um centro de acolhimento. Parentes de oficiais também seguiam e claro o resto dos dois bois semi – gordos que serviram para o nosso almoço serviriam para outros no Lubango, qual espólio de uma guerra que ( ainda) não tinha data para ser sucedida pela paz. Manuel Vieira

quarta-feira, setembro 27, 2006

Tiros de AKM contra vacinadores

A noticia daquele domingo 24 de Setembro, a noite era aterradora: “ Um grupo de três vacinadores foi surpreendido por disparos de AKM no bairro Calumbiro, arredores do Lubango”. O confrade que irradiava o facto aos quatro cantos do país tinha pormenores. Os factos ilucidavam cada vez mais, principalmente a nós que escolhemos esta “diaspora” para viver. Enquanto seguíamos a noticia entendíamos que tudo não terá passado de um mal entendido. Houve um claro excesso dos homens que dispararam. Veio a se apurar que eram guardas de uma quinta local. Os vacinadores, jovens ( desconfio que andam a procura do primeiro emprego) terão entrado para a quinta do agricultor sem aviso ou permissão, apenas com a nobre intenção de vacinar. Mas outro elemento entra em campo: o álcool. O correspondente da RNA, o confrade MESPERANÇA, dizia que os guardas, já detidos, estavam embriagados. É complicado ter álcool no corpo e arma na mão. Ainda num domingo... Felizmente os disparos apenas perfuraram a camisola branca do programa alargado de vacinação envergada por um dos jovens que distribuíam as gotas milagrosas aos menores de cinco anos deste bairro.

terça-feira, setembro 26, 2006

Chipindo: Na frente de guerra ( 1)

Os dois helicópteros levantavam. Rumavam para oeste de volta ao Lubango depois de terem, no Chipindo, deixado a comitiva de militares e policias - de alta patente e sua segurança - e jornalistas numa das mais temidas frentes de guerra de toda a região sul. Corria o ano de 2001 e a guerrilha do “ galo negro” tinha sido desalojada deste extremo nordeste faziam dez dias. Era cacimbo ( tempo seco)e o frio apertava. Os guerrilheiros apossaram-se de Chipindo durante treze longos anos. A população depauperada, vivia como podia. Longe das trocas comerciais com os grandes centros urbanos, a ( sobre) vivência só era possível pela versatilidade dos angolanos. A intenção dos “homens de armas” em levar os jornalistas ao terreno, era para constatar “ in loco” o alargamento do cordão defensivo do exercito governamental, naquele tempo em que estava no auge a lógica de “ fazer a guerra para acabar com ela”. Os doze jornalistas, em que me incluo, foram autorizados a falar com os capturados da guerrilha, com os comandantes locais da policia e das FAA e depois com o chefe da missão. Os “ escribas” eram do Lubango e de Luanda. Conhecedor da região ( afinal era na minha provincia e ai residia ) e falando o umbundu tive relativa vantagem sobre os demais. Escolhi, para entrevistar, em entre vários, um senhor de meia idade. Maltrapilho, olhos assustados, esfomeado. O homem, descalço ( suspeito que nunca usou botas militares na vida...), representava apenas um remoto exemplar de um guerrilheiro a moda africana! Falou-me num umbundu vernacular sobre as suas façanhas da guerra! Temia ser preso por muito tempo, fruto da sua captura em terreno de guerra agora ocupado pelo inimigo figadal daquele tempo. Contou-me que os seus companheiros estavam a menos de dez kms, dados depois não confirmados pelas FAA. Depois deste, ouvi outros tantos. O meu dia mais longo numa frente de guerra ia passando, ora ouvindo as estorias e historias de guerra contadas pelos oficias governamentais, ora rabiscando qualquer coisa no meu bloco de notas. As horas passavam. Mesmo em terreno hostil um agradável almoço foi servido e regado com vinho levado do Lubango. Dois bois semi- gordos foram abatidos para a numerosa refeição. Fiquei curioso em saber se o gado foi capturado dos guerrilheiros ou apascentado nas cercanias. O que era quase impossível numa frente de guerra .....

ouvintes

«Um homem que tenha algo a dizer e não encontre ouvintes está em má situação. Mas pior ainda estão os ouvintes que não encontrem quem tenha algo a dizer-lhes» (Bertolt Brecht)

O culto da voz na radio. O regresso....

A RDP quer recuperar culto da voz na rádio. A música já não é a principal atracção da rádio. A Televisão, a Internet e os Leitores de Áudio Digital (LAD) contribuíram para isso, mas continua-se a insistir em estações musicais com play lists de gosto duvidoso. Nestas emissoras, a palavra tem sido ostracizada e, para piorar o cenário de si já muito negro, os noticiários estão - segundo José Mário Costa, responsável pedagógico da rádio pública, em declarações ao jornal "Diário Económico" - «hipotecados à agenda, aos jornais feitos na véspera e às agências de comunicação». Não é de admirar, portanto, que a rádio portuguesa tenha perdido quase mil ouvintes por mês, no último ano. As novas tecnologias permitiram que o tradicional imediatismo da rádio encontrasse rivais nas televisões e nas edições online dos jornais. Uma das armas para que a rádio ainda seja um medium dinâmico e competitivo é a mais antiga forma de comunicação humana: a voz. Assim sendo, é de saudar que a RDP se baseie «no modelo anglo-saxónico da BBC e quer, a médio e longo prazo, assentar a sua informação no “tripé” editor, produtor de informação e apresentador. “O que se passa actualmente é que são os editores a apresentar as notícias, ficando sem tempo para ir atrás das notícias e para as descascar”». Será a formula certa para que a rádio recupere os ouvintes que perdeu? Se não é, pelo menos está no bom caminho. Do Blog Http/ ouvidor.blogspot.com

O fim da radio? Nunca !

“O fim da rádio não é para já”. Esta previsão é de Seth Godin, que nos apresenta no seu blogue algumas das razões porque a rádio ainda está para durar. “A ideia da rádio…a ideia de um fluxo de áudio determinado por um fornecedor externo não vai desaparecer tão cedo. As pessoas gostam”. E porquê? Simples. Os ouvintes gostam de ser surpreendidos. Uma coisa é ter música gravada num qualquer suporte (CD, MD, Cassete analógica, etc.), sabendo o que se irá escutar, outra é ouvir uma música, porventura até arredada da memória, enquadrada por um comentário do animador. É a capacidade de surpreender com o jogo música/palavra que estimula a imaginação de quem sintoniza uma emissora, criando assim um elo emocional agradável entre os ouvintes e a estação radiofónica. É isto a magia da rádio.

sábado, setembro 23, 2006

"Memorias de um guerrilheiro" Orlando Castro

Acabei agora de ler o livro “Memórias de um guerilheiro” de Alcides Sakala, meu velho e querido amigo dos tempos (entre outros) dos bancos da escola no Huambo. Para além de outras considerações, a leitura lembrou-me um artigo de Eugénio Costa Almeida, recentemente publicado no seu http://pululu.blogspot.com/ em que afirma que “independentemente das simpatias partidárias ou do carácter dos mesmos, existem (para além de Agostinho Neto), pelo menos, mais dois grandes líderes que devem gozar do estatuto de Herói Nacional: Holden Roberto e Jonas Savimbi”. Quem ler o livro, ultrapassando as gralhas, as repetições e a descuidada revisão, compreenderá porque, sempre que falo de Jonas Savimbi, recordo a frase que ele me disse, em 1975 no Huambo e a propósito da sua determinação em defender os milhões que têm pouco em detrimento dos poucos que têm milhões: «Há coisas que não se definem - sentem-se». Quem ler o livro compreenderá porque, no seu primeiro discurso como presidente da bancada parlamentar da UNITA, Alcides Sakala disse: "Vivemos numa sociedade marcada pela riqueza excessiva de uns e pela pobreza extrema da maioria». Alcides Sakala tem a sabedoria de quem sentiu, tantas e tantas vezes de forma dolorosa, os dois lados da História de Angola e, honrando esse conhecimento, luta para que os milhões que têm pouco passem a ter algo mais. Juntando a experiência das matas à dos grandes areópagos da política internacional, Alcides Sakala mostra que nunca se esqueceu que Angola não se define – sente-se. E de uma coisa todos podemos ter a certeza: Alcides Sakala sente Angola como poucos, como muito poucos. Sente Angola como a sentiu o Mais Velho. Orlando Castro

sexta-feira, setembro 22, 2006

REVISTA LUBANGO

Um dos grandes desequilíbrios por mim sentidos, na recente visita que efectuei ao Lubango, foi a gritante falta de informação. Uma falta sentida por um cidadão médio da capital da Huila no dia a dia. O desencanto era menor, no entanto, porque decidi nestas ferias desligar-me das noticias e concentrar-me em trabalhos de investigação histórica sobre Caconda, a vila onde nasci. Mas o vazio informativo, mesmo assim, não foi ultrapassado. Os meios de comunicação social estatais ao que parece estão num “ocaso latente”. Os jornais privados chegam em numero bastante inferior, isto quando chegam. A radio alternativa, a comercial ainda precisa de uma terapia de choque para encontrar o seu norte, depois da sangria que sofreu, levando sarjeta abaixo os laivos da “ independência” da informação e engenhosidade dos fazedores de opinião da altura. Ora, a denuncia, o cruzamento da informação, a opinião de actores sociais diversificados são coisas do passado. Hoje o privilegio vai para o “ politicamente correcto”. Nesta analise, tentei me colocar no lugar do mais comum dos cidadãos. Aquele, que por força destas circunstancias, já não participa nos grandes acontecimentos da sua terra. A imensa Angola é retractada apenas num sentido, o oficial. A Huila, é opinião unanime de quem a conhecei entre 1995 a 2005, regrediu alguns passos no que toca a liberdade de informação. Estes dez anos foram, amiúde, descritos como os tempos áureos para o fomento da imprensa regional. Mesmo com poucos incentivos, a “carolice” de alguns escribas satisfazia as necessidades de informação do grande publico. A critica, velada ou aberta, era uma constante. A submissão era rejeitada. Claro que não estávamos perante realidades tão distantes como aquelas transmitidas pelo jornal local OMUKANDA, do falecido Miguel, o Kassana ou o César André, mas a informação na Huila era válida. O ocaso que se regista hoje é, no entanto, ligeiramente sacudido por uma publicação local nova , conhecida como REVISTA “ LUBANGO”. O magazine tem qualidade, com altos custos. Redacção local, impressão no estrangeiro e toda colorida. Um exemplar me foi oferecido, por um dos jornalistas percursores da iniciativa. Fui informado que devia ser de âmbito municipal, retractando apenas o Lubango, mas depois foi “ abocalhada” pelo governo provincial. Nada mau. O fomento da imprensa regional volta a ganhar fôlego, mas como se nota só informação oficial pode ai parar. A revista tem qualidade, bons jornalistas, mas( ainda) não satisfaz a necessidade de informação na Huila. Bem haja a iniciativa e que viva muito tempo a revista Lubango.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Um recado para a " FBM - agua da Chela"

DE UM INTERNAUTA RECEBI ESTE EMAIL: " Atn. Manuel Vieira- Angola Buscando en Internet la direccion de Agua de Chela, aparecio su blog y despues de leerlo y ver su lema " la suerte persigue a los audaces " me he permitido en nombre de mi compañia, el dirigirme a Ud. para contarle que nosotros estamos interesados en contactar via e-mail si es posible, con la Compañia Agua de Chela, porque nuestra empresa trabaja en el Sector de la Industria de Aguas Minerales, - Diseña, cosntruye y monta Lineas completas para el embasado de Agua Mineral,- quisieramos saber como contactar con esta industria. Aunque veo que Ud. no se dedica a este negocio, si por su mediacion pudieramos realizar este contacto y comenzar algun proyecto, Ud. tambien podria participar de algun beneficion economico. Si quiere contestar sobre este asunto, tiene mi correo electronico arriba. Un cordial saludo de un Ingeniero "audaz " Ing. Jose L.Avarez "

E a Huila ai pertinho ....

Um arejado governador do Cunene apareceu, nesta quinta 21, aos microfones da radio do estado, dizer aquilo que há muito já se dizia, mas que como quase tudo neste país, infelizmente, deve ser assumido primeiro pelas lideranças politicas e depois o " povo em geral" fazer (?), se possivel, a sua parte. Pedro Mutindi, disse, palavra menos palavra, que cerca de dez por cento da população do Cunene está infectada com o virus da morte, SIDA. A igreja já denunciou, ninguem ligou; as Ongs alertaram fiseram ouvidos moucos. Contudo, " mas vale tarde do que nunca". O governador, arejado como já disse - conhecedor da provincia ( alias lá anda a mandar a mais de 25 anos !!) - disse ainda que quem não está infectado, está pois claro afectado. Nada mais certo... Com o alcance da indepdencia da Namibia, a prostituição aumentou exponecialmente na fronteira com Angola. Jovens houve que desistiram de tudo no Lubango e rumaram para dar o corpo na fronteira. Pior, com a falta de oportunidades na Huila, o Cunene era solução para muitas (os). E agora, nota-se a solução! Se o Cunene está assim, fruto da circulaçao facil com a Africa do sul, com o Botswana e com a Namibia, quem arrisca a falar sobre a prevalência na vizinha Huila.È que a Huila é ai tão pertinho ... Manuel Vieira

Um criador de emoções!

Folheando mais um obra do nosso " Camões", Artur Pestana, reavivei por momentos o meu primeiro encontro com o homem das letras. Foi numa terça feira, no inicio do ano. Depois dos contactos preliminares lá fomos ( com o companheiro João) ao encontro de Pepetela. Proposemos uma hora de entrevista para o programa " discurso directo" da catolica. Dez horas e lá estavamos nós no portão de uma vivenda no Miramar, um dos mais "chiques" bairros da capital, onde de uma só sentada encontram-se embaixadas, sedes de empresas de monta e até a nova casa do " boss cá do sitio"! Uma jovem veio ter com os escribas e segundos depois estavam no interior da moradia. A humildade do sociologo, convertido em celebre escritor foi a primeira nota que me passou pelos olhos. Começamos por falar de tudo um pouco, mas depois o fio condutor da entrevista foi reafirmado, recomposto.Falamos do " Predadores", o livro que devia sair na epoca. Ficamos a saber que Pepetela é quase alergico a entrevistas. Ficamos a saber, também, que o livro seria um " retracto mordaz" da realidade conteporanea, passeando pelos mais variados assuntos da vida nacional tendo na trama um "trambiqueiro politico", um prototipo dos vorazes dos dias de hoje. Uma entrevista memoravel para alguem , como eu, que passei o fim da infancia e boa parte da adolescencia viagando nas "letras esculpidas" em obras como " As aventuras de Ngunga", " LUeji" ou " Maiombe". Pude satisfazer curiosidades e perguntar o que quis. O homem discorreu sobre a politica e o seu desecanto, o 27 de Maio, o poder popular, os jornalistas, os escritores e o mundo de hoje, o vinho, a minha Huila, o gado, o conflito de terras e por aí alem.... A entrevista seria feita em uma hora, mas ficamos mais tempo. Parece que o professor Pepetela chegou mesmo a faltar em algumas aulas que devia dar! Ao sair do local fiquei com a posiçao reafirmada de que estava, realmente, ao lado de um dos mais importantes " criadores de emoções" literárias deste país. Manuel Vieira