segunda-feira, outubro 02, 2006

Salteadores?

Mais uma vez uma viatura foi surpreendida com disparos de armas de fogo, em plena viagem. Desta vez tratou-se de um Toyota Hiace, em trabalho de taxi, improvisado. O numero exacto de passageiros não foi precisado. Mais uma vez isto deu-se no troço Lubango/Huambo. Mais uma vez o susto fez recordar o passado, quando viajar pelo interior do país era quase um suicídio. Depois da paz, aos poucos a circulação de pessoas e meios ganhou “fôlego”. Mas, os chamados bandos errantes faziam tudo para espoliar quem se aventurasse pelas estradas de Angola. Já houve mortos, feridos, carros incendiados e haveres desaparecidos! Sobre culpados, havia promessa das autoridades para a sua captura. Desta vez, um dos três salteadores foi “detido” ( ou será retido?) pela população. O homem foi atirado para os calabouços da policia que agora tenta encontrar o resto da quadrilha. Com os “ventos da paz” soprando há quatro anos, a noticia, divulgada pela Radio Ecclesia – emissora católica de Angola, soa a surpresa com um misto profundo de desilusão. Até quando salteadores nas estradas do interior de Angola? Quem como eu palmilhou a zona deste ataque ( a meio caminho entre o Lubango e o Huambo) só pode lamentar a desdita de mais alguns compatriotas, seguramente, ávidos em terem paz real na sua própria terra. E claro, é hora dos cidadãos andarem pelo país, sem a preocupação de colidir com homens armados, com espingardas em riste, para roubarem os poucos haveres que o povo encontra para driblar a pobreza. Espero, contudo, que os tiros não estejam de volta á Huila....

sábado, setembro 30, 2006

O papel da rádio em Angola. Por Margareth Nanga

A Rádio Ecclesia é sem dúvida, o meio de comunicação que muito disse e diz à liberdade de expressão em Luanda, uma vez que ainda não tem permissão para emitir nas restantes 17 províncias angolanas. Esta estação reiniciou as suas emissões em 1996 mas, é em 1997 que dá os grandes passos e promove as primeiras emoções nos corações do público angolano, com a emissão de programas e jornais. A estação Católica não é só um novo meio, uma alternativa (em relação aos meios estatais), é antes de tudo um meio de comunicação que procura analisar “o outro lado“ das questões que os factos com relevância social e noticiosa fazem despoletar. Lado este, que é muitas vezes ofuscado ou intencionalmente omitido por qualquer razão que não seja a defesa do interesse público da comunidade. A Rádio Ecclesia é a estação da voz e vez dos que não têm espaço em nenhum outro meio de comunicação falado. A Emissora Católica ajuda hoje, na abertura de horizontes nesta sociedade, onde cada vez mais, os seus citadinos procuram sair do fundo das águas do silêncio que desespera. Esta assume corajosamente a sua missão e avança sem receios de um sistema que procura calar todos os que são contrários aos seus ideais. Sendo a primeira rádio com um sistema digital avançado em Angola e a única que o usa ao longo das suas emissões até ao momento, a rádio de confiança como também é conhecida, procura construir uma grelha de programas e informação com a maior qualidade possível e sempre com o intuito de levar à população o facto, a verdade, análise e opinião dos que a podem dar fazendo-o bem. A Ecclesia foi a pioneira dos debates informativos no mundo da rádio em Luanda. Com emissão ao sábados das 10h as 12h, o debate informativo é o segundo maior espaço de audiência da Emissora, na senda dos programas de carácter informativo. O fórum é o outro espaço de opinião. Neste os principais comentários são dos ouvintes, os chamados “comentaristas do quotidiano”. Neste dois espaços, os interlocutores são chamados a uma desafiadora e nobre missão: “pensar uma nova Angola”. Se este pensamento não é novo, e se daí não saem novidades para um país, a verdade é que sempre conseguiram suscitar fortes diálogos, com muitas críticas dirigidas à governação e aos seus governantes. Todos os sábados, segundas, quartas e sextas são dias de “desabafar”. Quem também lucrou muito com o surgimento da Rádio Ecclesia, foram os partidos políticos da oposição, não porque tenham um espaço assegurado na rádio mas, porque a Ecclesia dá oportunidade a todos para se expressarem, de acordo com a circunstância e importância sem deixar de ser apartidária. Com a Ecclesia, surgiram os jornais semanários com a mesma linha de actuação. Com isto, aos poucos, a imprensa passou a ser mais aberta, atrevida e, às vezes, “exagerada”. Seguiram-se críticas, rumores e até pronunciamentos oficiais de que a Rádio Ecclesia “era uma rádio de terroristas”, uma rádio contra-governo que só critica e nunca sugere, há até os mais ousados que a rotularam como sendo a “Rádio da Oposição”, “Rádio da Unita”, o maior partido da oposição. Com estes adjectivos, cada vez mais foi ficando difícil para a Emissora Católica ter fontes oficiais, os canais de informação no governo foram ficando cada vez mais fechados. Hoje, com quase 10 anos de reabertura, a Ecclesia continua a caminhar numa Angola onde já são visíveis, os sinais de uma sociedade pluralista. Hoje, é (também) graças à Ecclesia que cada um com a sua cor partidária, ou sem qualquer uma delas, consegue opinar e fazer da sociedade angolana, um sítio onde a diversidade pode “conversar” e andar. COLABORAÇÃO NO IGREJA LUSÓFONA O programa Igreja Lusófona tem o seu espaço ao domingo. A sua emissão em Angola passou por várias dificuldades técnicas que sendo superadas foram reiniciadas as emissões. A colaboração com este programa começou pouco depois da reabertura da rádio, tendo passado por ele jornalistas como, Gustavo Silva (actual Director Executivo da Ecclesia), Alexandre Cose e Cornélio Bento. Penso que desde o passado até ao momento, muita coisa mudou na relação Igreja Lusófona e Ecclesia. Desde as equipas que foram sendo substituídas (dum lado e do outro) até ao dia e hora de emissão do programa na grelha da rádio Ecclesia. As grandes dificuldades estão principalmente nas informações que nem sempre se tem acesso. Conseguimos ter de acordo com o tema e os problemas com a Internet, o que nem sempre facilita a emissão do programa em Angola. Mas, para além dos horizontes das nossas terras, e bem para lá do Oceano Atlântico esperamos que a nossa voz se faça ecoar para juntos fazermos a nossa parte, neste mundo, que muitos querem melhorar. ( Trabalho publicado num livro do Programa " Igreja Lusofona da Radio Renascença de Portugal)

sexta-feira, setembro 29, 2006

Tômbwa, entre as dunas e a planta rara

Um dos momentos áureos da comissão instaladora da juventude ecológica de Angola na região sul( Huila, Namibe e Cunene), foi a realização de uma excursão exploratória das potencialidades turísticas da Huila e do Namibe. Corria o ano de 1999 e lá estávamos nós, prontos para dias de aventura e observação. O espírito da livre aventura, parece que andava já encubado em nós. Com carro alugado pusemo-nos na estrada. Seriam mais de duzentos kms de estrada, até chegar próximo da foz do rio Cunene no município Namibense do Tômbwa. Depois de uma paragem de algumas horas no Namibe, pusemo-nos, deserto a dentro para o município que fica no meio de dunas. São 93 Kms a sul do Namibe, numa zona deslumbrante! São areias, montes, repteis e claro a “ mirabilis”! Uma das imagens que guardo até hoje da vila do Tômbwa, é o duelo entre o homem e as areais. È que o deserto teima em continuar a sua marcha rumo ás zonas habitadas. Soterrar tudo e todos parece ser o lema. Mas os homens não podem aceitar, mesmo com dunas a atingirem mais de dois metros de altura! As plantas lançadas á terra num projecto de local arborização dificilmente chegam a idade adulta, para cumprir o seu papel de cortina florestal, porque a falta de água acentua a sua “sede”. Mas a batalha entre o homem e o deserto vai continuando, qual o frasinho David tentado derrotar o gigante Golias e o seu exercito de dunas, areais e ventos fortes soterrando tudo a volta, inclusive um cemitério. O campo santo foi assim revestido de uma nova camada de areia. A quem dissesse que os mortos foram duas vezes sepultados. Manuel Vieira

quinta-feira, setembro 28, 2006

O teatro nas radios do Lubango

Os “ Olonguende”, caminhantes em Português e os “ Kandimbas (coelhinhos) de Santa Cecília”, são dois dos mais representativos grupos de teatro do Lubango. Muito mais por carolice e hobby, é que eles vão resistindo. Faltam-lhes apoios, mas os jovens resistem os intempéries da vida. O teatro como forma de manifestação cultural, ganha no Lubango uma dimensão maior. Com o sector musical de rastos, a pintura e a escultura “respirando ofegante”, só mesmo o teatro consegue dar o ar da sua graça para não lançar para as “calendas gregas” uma das melhores e expontâneas formas de produzir uma bela arte. Para o “ boom” que se regista nesta disciplina de arte em muito contribui a radio, alias não é de hoje. Data de 1999 ou ano 2000 que realizadores, especialmente da comercial, optaram por preencher alguns dos seus espaços com diálogos sobre o teatro, encenações ao microfone, e como isso, claro, a massificação da actividade através da atribuição de bilhetes aos ouvintes, em troca de publicidade para as peças a serem exibidas nas improvisadas salas de teatro. O destaque ia para a sala da associação “ ADRA”, a custo zero. Ora, seis anos depois, visitando o Lubango pude constatar que o teatro foi a única coincidência em dois programas de uma manhã de radio. Era sábado e como se não bastasse no mesmo horário, o espaço 9H –10H. Na comercial, Radio 2000, o programa matinal era preenchido com a conversa com um actor do “ Olonguende”. Já na Radio Huila, o director artístico dos “ kandimbas”, que pertencem a missão católica do Lubango, debitava momentos de uma peça sobre HIV Sida e ao que parece tinha muita aderência. E assim caminha ( va) o teatro no Lubango, pelo menos na radio. Mas fiquei sem saber se eram os grupos que mais espaços conseguiram nas rádios ou eram os realizadores que se renderam ao sucesso desta bela arte.... Manuel Vieira

CHIPINDO: Na frente de guerra ( 2)

Na visão estratégica da altura a tomada de assalto deste município era um ponto muito importante. Chipindo, no estremo leste da Huila dá acesso rápido ao Kuando Kubango, ao Huambo e a ao Bié. É um dos três municípios que constituíam o chamado “ corredor do leste”, um conjunto de três municipalidades que facilitavam ampliar o esforço de guerra tanto para sul, como para a planaltica zona central do país. Com Chicomba, Jamba Mineira, Chipindo é composto de carreiros, picadas em planícies e outras zonas que facilitam a vida de uma guerrilha. Estes são pontos trazidos a lume numa serie de reportagens, que acompanhei pela net, do jornalista de guerra Stefan Smith escrevendo na altura para um jornal Português. E neste dia do longínquo ano de 2001, testemunhava, eu próprio, as imagens idílicas na altura trazidas ao publico por este experimentando escriba que descrevia minuciosamente tudo o que observava na região, com a diferença de que via as coisas do lado dos guerrilheiros. Chipindo era, pois, a sombra de si mesmo. Ao sobrevoar a vila naquela manhã, pudemos observar rios e regatos, bem como, a destruição das pequenas infra estruturas que o colono deixou no terreno. Até as portas foram arrancadas para aquecer as fogueiras dos soldados! Com o escurecer um cenário fantasmagórico tomava conta da zona. O capim fazia parte do cenário. A mendicidade também. Do poente avistamos os gigantes do ar de regresso. Os últimos minutos nesta “frente de guerra” serviram para memorizar todo um cenário! O regresso ao Lubango estava previsto para as 17, mas a viagem de volta a cidade só aconteceu as 18 horas. Os 500 kms foram feitos em cerca de uma hora. Os helicópteros iam cheios. Á comitiva inicial foi acrescentada mais um grupo de crianças. Os petizes iriam para um centro de acolhimento. Parentes de oficiais também seguiam e claro o resto dos dois bois semi – gordos que serviram para o nosso almoço serviriam para outros no Lubango, qual espólio de uma guerra que ( ainda) não tinha data para ser sucedida pela paz. Manuel Vieira

quarta-feira, setembro 27, 2006

Tiros de AKM contra vacinadores

A noticia daquele domingo 24 de Setembro, a noite era aterradora: “ Um grupo de três vacinadores foi surpreendido por disparos de AKM no bairro Calumbiro, arredores do Lubango”. O confrade que irradiava o facto aos quatro cantos do país tinha pormenores. Os factos ilucidavam cada vez mais, principalmente a nós que escolhemos esta “diaspora” para viver. Enquanto seguíamos a noticia entendíamos que tudo não terá passado de um mal entendido. Houve um claro excesso dos homens que dispararam. Veio a se apurar que eram guardas de uma quinta local. Os vacinadores, jovens ( desconfio que andam a procura do primeiro emprego) terão entrado para a quinta do agricultor sem aviso ou permissão, apenas com a nobre intenção de vacinar. Mas outro elemento entra em campo: o álcool. O correspondente da RNA, o confrade MESPERANÇA, dizia que os guardas, já detidos, estavam embriagados. É complicado ter álcool no corpo e arma na mão. Ainda num domingo... Felizmente os disparos apenas perfuraram a camisola branca do programa alargado de vacinação envergada por um dos jovens que distribuíam as gotas milagrosas aos menores de cinco anos deste bairro.

terça-feira, setembro 26, 2006

Chipindo: Na frente de guerra ( 1)

Os dois helicópteros levantavam. Rumavam para oeste de volta ao Lubango depois de terem, no Chipindo, deixado a comitiva de militares e policias - de alta patente e sua segurança - e jornalistas numa das mais temidas frentes de guerra de toda a região sul. Corria o ano de 2001 e a guerrilha do “ galo negro” tinha sido desalojada deste extremo nordeste faziam dez dias. Era cacimbo ( tempo seco)e o frio apertava. Os guerrilheiros apossaram-se de Chipindo durante treze longos anos. A população depauperada, vivia como podia. Longe das trocas comerciais com os grandes centros urbanos, a ( sobre) vivência só era possível pela versatilidade dos angolanos. A intenção dos “homens de armas” em levar os jornalistas ao terreno, era para constatar “ in loco” o alargamento do cordão defensivo do exercito governamental, naquele tempo em que estava no auge a lógica de “ fazer a guerra para acabar com ela”. Os doze jornalistas, em que me incluo, foram autorizados a falar com os capturados da guerrilha, com os comandantes locais da policia e das FAA e depois com o chefe da missão. Os “ escribas” eram do Lubango e de Luanda. Conhecedor da região ( afinal era na minha provincia e ai residia ) e falando o umbundu tive relativa vantagem sobre os demais. Escolhi, para entrevistar, em entre vários, um senhor de meia idade. Maltrapilho, olhos assustados, esfomeado. O homem, descalço ( suspeito que nunca usou botas militares na vida...), representava apenas um remoto exemplar de um guerrilheiro a moda africana! Falou-me num umbundu vernacular sobre as suas façanhas da guerra! Temia ser preso por muito tempo, fruto da sua captura em terreno de guerra agora ocupado pelo inimigo figadal daquele tempo. Contou-me que os seus companheiros estavam a menos de dez kms, dados depois não confirmados pelas FAA. Depois deste, ouvi outros tantos. O meu dia mais longo numa frente de guerra ia passando, ora ouvindo as estorias e historias de guerra contadas pelos oficias governamentais, ora rabiscando qualquer coisa no meu bloco de notas. As horas passavam. Mesmo em terreno hostil um agradável almoço foi servido e regado com vinho levado do Lubango. Dois bois semi- gordos foram abatidos para a numerosa refeição. Fiquei curioso em saber se o gado foi capturado dos guerrilheiros ou apascentado nas cercanias. O que era quase impossível numa frente de guerra .....

ouvintes

«Um homem que tenha algo a dizer e não encontre ouvintes está em má situação. Mas pior ainda estão os ouvintes que não encontrem quem tenha algo a dizer-lhes» (Bertolt Brecht)

O culto da voz na radio. O regresso....

A RDP quer recuperar culto da voz na rádio. A música já não é a principal atracção da rádio. A Televisão, a Internet e os Leitores de Áudio Digital (LAD) contribuíram para isso, mas continua-se a insistir em estações musicais com play lists de gosto duvidoso. Nestas emissoras, a palavra tem sido ostracizada e, para piorar o cenário de si já muito negro, os noticiários estão - segundo José Mário Costa, responsável pedagógico da rádio pública, em declarações ao jornal "Diário Económico" - «hipotecados à agenda, aos jornais feitos na véspera e às agências de comunicação». Não é de admirar, portanto, que a rádio portuguesa tenha perdido quase mil ouvintes por mês, no último ano. As novas tecnologias permitiram que o tradicional imediatismo da rádio encontrasse rivais nas televisões e nas edições online dos jornais. Uma das armas para que a rádio ainda seja um medium dinâmico e competitivo é a mais antiga forma de comunicação humana: a voz. Assim sendo, é de saudar que a RDP se baseie «no modelo anglo-saxónico da BBC e quer, a médio e longo prazo, assentar a sua informação no “tripé” editor, produtor de informação e apresentador. “O que se passa actualmente é que são os editores a apresentar as notícias, ficando sem tempo para ir atrás das notícias e para as descascar”». Será a formula certa para que a rádio recupere os ouvintes que perdeu? Se não é, pelo menos está no bom caminho. Do Blog Http/ ouvidor.blogspot.com

O fim da radio? Nunca !

“O fim da rádio não é para já”. Esta previsão é de Seth Godin, que nos apresenta no seu blogue algumas das razões porque a rádio ainda está para durar. “A ideia da rádio…a ideia de um fluxo de áudio determinado por um fornecedor externo não vai desaparecer tão cedo. As pessoas gostam”. E porquê? Simples. Os ouvintes gostam de ser surpreendidos. Uma coisa é ter música gravada num qualquer suporte (CD, MD, Cassete analógica, etc.), sabendo o que se irá escutar, outra é ouvir uma música, porventura até arredada da memória, enquadrada por um comentário do animador. É a capacidade de surpreender com o jogo música/palavra que estimula a imaginação de quem sintoniza uma emissora, criando assim um elo emocional agradável entre os ouvintes e a estação radiofónica. É isto a magia da rádio.

sábado, setembro 23, 2006

"Memorias de um guerrilheiro" Orlando Castro

Acabei agora de ler o livro “Memórias de um guerilheiro” de Alcides Sakala, meu velho e querido amigo dos tempos (entre outros) dos bancos da escola no Huambo. Para além de outras considerações, a leitura lembrou-me um artigo de Eugénio Costa Almeida, recentemente publicado no seu http://pululu.blogspot.com/ em que afirma que “independentemente das simpatias partidárias ou do carácter dos mesmos, existem (para além de Agostinho Neto), pelo menos, mais dois grandes líderes que devem gozar do estatuto de Herói Nacional: Holden Roberto e Jonas Savimbi”. Quem ler o livro, ultrapassando as gralhas, as repetições e a descuidada revisão, compreenderá porque, sempre que falo de Jonas Savimbi, recordo a frase que ele me disse, em 1975 no Huambo e a propósito da sua determinação em defender os milhões que têm pouco em detrimento dos poucos que têm milhões: «Há coisas que não se definem - sentem-se». Quem ler o livro compreenderá porque, no seu primeiro discurso como presidente da bancada parlamentar da UNITA, Alcides Sakala disse: "Vivemos numa sociedade marcada pela riqueza excessiva de uns e pela pobreza extrema da maioria». Alcides Sakala tem a sabedoria de quem sentiu, tantas e tantas vezes de forma dolorosa, os dois lados da História de Angola e, honrando esse conhecimento, luta para que os milhões que têm pouco passem a ter algo mais. Juntando a experiência das matas à dos grandes areópagos da política internacional, Alcides Sakala mostra que nunca se esqueceu que Angola não se define – sente-se. E de uma coisa todos podemos ter a certeza: Alcides Sakala sente Angola como poucos, como muito poucos. Sente Angola como a sentiu o Mais Velho. Orlando Castro

sexta-feira, setembro 22, 2006

REVISTA LUBANGO

Um dos grandes desequilíbrios por mim sentidos, na recente visita que efectuei ao Lubango, foi a gritante falta de informação. Uma falta sentida por um cidadão médio da capital da Huila no dia a dia. O desencanto era menor, no entanto, porque decidi nestas ferias desligar-me das noticias e concentrar-me em trabalhos de investigação histórica sobre Caconda, a vila onde nasci. Mas o vazio informativo, mesmo assim, não foi ultrapassado. Os meios de comunicação social estatais ao que parece estão num “ocaso latente”. Os jornais privados chegam em numero bastante inferior, isto quando chegam. A radio alternativa, a comercial ainda precisa de uma terapia de choque para encontrar o seu norte, depois da sangria que sofreu, levando sarjeta abaixo os laivos da “ independência” da informação e engenhosidade dos fazedores de opinião da altura. Ora, a denuncia, o cruzamento da informação, a opinião de actores sociais diversificados são coisas do passado. Hoje o privilegio vai para o “ politicamente correcto”. Nesta analise, tentei me colocar no lugar do mais comum dos cidadãos. Aquele, que por força destas circunstancias, já não participa nos grandes acontecimentos da sua terra. A imensa Angola é retractada apenas num sentido, o oficial. A Huila, é opinião unanime de quem a conhecei entre 1995 a 2005, regrediu alguns passos no que toca a liberdade de informação. Estes dez anos foram, amiúde, descritos como os tempos áureos para o fomento da imprensa regional. Mesmo com poucos incentivos, a “carolice” de alguns escribas satisfazia as necessidades de informação do grande publico. A critica, velada ou aberta, era uma constante. A submissão era rejeitada. Claro que não estávamos perante realidades tão distantes como aquelas transmitidas pelo jornal local OMUKANDA, do falecido Miguel, o Kassana ou o César André, mas a informação na Huila era válida. O ocaso que se regista hoje é, no entanto, ligeiramente sacudido por uma publicação local nova , conhecida como REVISTA “ LUBANGO”. O magazine tem qualidade, com altos custos. Redacção local, impressão no estrangeiro e toda colorida. Um exemplar me foi oferecido, por um dos jornalistas percursores da iniciativa. Fui informado que devia ser de âmbito municipal, retractando apenas o Lubango, mas depois foi “ abocalhada” pelo governo provincial. Nada mau. O fomento da imprensa regional volta a ganhar fôlego, mas como se nota só informação oficial pode ai parar. A revista tem qualidade, bons jornalistas, mas( ainda) não satisfaz a necessidade de informação na Huila. Bem haja a iniciativa e que viva muito tempo a revista Lubango.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Um recado para a " FBM - agua da Chela"

DE UM INTERNAUTA RECEBI ESTE EMAIL: " Atn. Manuel Vieira- Angola Buscando en Internet la direccion de Agua de Chela, aparecio su blog y despues de leerlo y ver su lema " la suerte persigue a los audaces " me he permitido en nombre de mi compañia, el dirigirme a Ud. para contarle que nosotros estamos interesados en contactar via e-mail si es posible, con la Compañia Agua de Chela, porque nuestra empresa trabaja en el Sector de la Industria de Aguas Minerales, - Diseña, cosntruye y monta Lineas completas para el embasado de Agua Mineral,- quisieramos saber como contactar con esta industria. Aunque veo que Ud. no se dedica a este negocio, si por su mediacion pudieramos realizar este contacto y comenzar algun proyecto, Ud. tambien podria participar de algun beneficion economico. Si quiere contestar sobre este asunto, tiene mi correo electronico arriba. Un cordial saludo de un Ingeniero "audaz " Ing. Jose L.Avarez "

E a Huila ai pertinho ....

Um arejado governador do Cunene apareceu, nesta quinta 21, aos microfones da radio do estado, dizer aquilo que há muito já se dizia, mas que como quase tudo neste país, infelizmente, deve ser assumido primeiro pelas lideranças politicas e depois o " povo em geral" fazer (?), se possivel, a sua parte. Pedro Mutindi, disse, palavra menos palavra, que cerca de dez por cento da população do Cunene está infectada com o virus da morte, SIDA. A igreja já denunciou, ninguem ligou; as Ongs alertaram fiseram ouvidos moucos. Contudo, " mas vale tarde do que nunca". O governador, arejado como já disse - conhecedor da provincia ( alias lá anda a mandar a mais de 25 anos !!) - disse ainda que quem não está infectado, está pois claro afectado. Nada mais certo... Com o alcance da indepdencia da Namibia, a prostituição aumentou exponecialmente na fronteira com Angola. Jovens houve que desistiram de tudo no Lubango e rumaram para dar o corpo na fronteira. Pior, com a falta de oportunidades na Huila, o Cunene era solução para muitas (os). E agora, nota-se a solução! Se o Cunene está assim, fruto da circulaçao facil com a Africa do sul, com o Botswana e com a Namibia, quem arrisca a falar sobre a prevalência na vizinha Huila.È que a Huila é ai tão pertinho ... Manuel Vieira

Um criador de emoções!

Folheando mais um obra do nosso " Camões", Artur Pestana, reavivei por momentos o meu primeiro encontro com o homem das letras. Foi numa terça feira, no inicio do ano. Depois dos contactos preliminares lá fomos ( com o companheiro João) ao encontro de Pepetela. Proposemos uma hora de entrevista para o programa " discurso directo" da catolica. Dez horas e lá estavamos nós no portão de uma vivenda no Miramar, um dos mais "chiques" bairros da capital, onde de uma só sentada encontram-se embaixadas, sedes de empresas de monta e até a nova casa do " boss cá do sitio"! Uma jovem veio ter com os escribas e segundos depois estavam no interior da moradia. A humildade do sociologo, convertido em celebre escritor foi a primeira nota que me passou pelos olhos. Começamos por falar de tudo um pouco, mas depois o fio condutor da entrevista foi reafirmado, recomposto.Falamos do " Predadores", o livro que devia sair na epoca. Ficamos a saber que Pepetela é quase alergico a entrevistas. Ficamos a saber, também, que o livro seria um " retracto mordaz" da realidade conteporanea, passeando pelos mais variados assuntos da vida nacional tendo na trama um "trambiqueiro politico", um prototipo dos vorazes dos dias de hoje. Uma entrevista memoravel para alguem , como eu, que passei o fim da infancia e boa parte da adolescencia viagando nas "letras esculpidas" em obras como " As aventuras de Ngunga", " LUeji" ou " Maiombe". Pude satisfazer curiosidades e perguntar o que quis. O homem discorreu sobre a politica e o seu desecanto, o 27 de Maio, o poder popular, os jornalistas, os escritores e o mundo de hoje, o vinho, a minha Huila, o gado, o conflito de terras e por aí alem.... A entrevista seria feita em uma hora, mas ficamos mais tempo. Parece que o professor Pepetela chegou mesmo a faltar em algumas aulas que devia dar! Ao sair do local fiquei com a posiçao reafirmada de que estava, realmente, ao lado de um dos mais importantes " criadores de emoções" literárias deste país. Manuel Vieira

Radio 2000: um caso (ainda) sem solução!

O Tribunal Provincial da Huíla ainda não se pronunciou sobre o processo de conciliação remetido pelos advogados dos jornalistas despedidos da «Rádio 2000» no começo deste ano. Segundo uma fonte familiarizada com o processo, contactada pela Voz da América, o prazo razoável para que se produza um pronunciamento para casos do género é de 30 dias e este tempo já venceu há bastante tempo. Um braço de ferro entre um grupo de trabalhadores daquela estacão emissora privada instalou-se desde a manhã do dia 5 de Janeiro, quando jornalistas e outro pessoal de serviço decidiram paralisar a sua actividade, por 24 horas, alegadamente para forçar a direcção da rádio a satisfazer reclamações apresentadas num caderno reivindicativo havia já dois meses. Entre estas reclamações constavam aumentos dos salários dos trabalhadores, a melhoria das condições técnicas de trabalho e ainda uma mudança do quadro social do pessoal da única rádio privada da província da Huíla. Face à insensibilidade da direcção perante as reivindicações apresentadas, os funcionarios concluíram que não havia uma boa condição relacional entre patronato e trabalhadores pelo propuseram ainda a substituição da direcção, encabeçada então por Horácio Reis, da «Rádio 2000», como ponto fulcral para o sanar da crise de direcção e comunicação que se vivia. Apesar da intervenção de influentes membros do grupo GEFI, gestora do império económico do MPLA, com acções na rádio, a situação não veio a conhecer melhorias substanciais, pelo que a crise continuou até que uma nova paralisação foi decretada dois dias depois em solidariedade com os colegas suspensos pela nova direcção encabeçada já por Manuel Bartolomeu. A suspensão recaíra sobre os jornalistas Teodoro Albano, Mário Silva e Cláudio Dias que depois foram intimados a comparecer na Polícia de Investigação Criminal local para prestar declarações, alegadamente porque teriam sabotado e destruído meios da estação emissora. O novo director também havia dado mostras de que recorreria a funcionários da emissora provincial local para garantir a emissões da radio 2000, facto que preocupou e levou a intervenção da representação local do Sindicato dos Jornalistas Angolanos. (Eugénio Mateus)

sábado, setembro 16, 2006

jornalimo do futuro

O «New York Times» noticiou que o organismo responsável pela medição das audiências nos Estados Unidos, o Audit Bureau of Circulations, decidiu juntar os números da leitura dos jornais na Internet à audiência das vendas em banca. Na primeira fase, estes novos dados de audiência – que resultam da soma do tráfego na Web com a leitura das edições em papel – vão ser disponibilizados apenas aos títulos especializados na área do negócio. O sistema tem de ser afinado, para evitar que o mesmo leitor seja contabilizado duas vezes: uma por ter comprado a publicação na banca, outra por ter consultado o site da mesma na Internet. Embora essa dupla acção não deixe de, na realidade, contar como um índice de audiência real. O certo é que estamos perante mais um sinal da importância crescente dos jornais e revistas na rede. Ao ponto destes já contarem para os níveis de audiência dos títulos. O que de resto já devia estar a acontecer há muito. Miguel Martins Editor de Multimédia do EXPRESSO

WORLD TRADE CENTER

World Trade Center de Oliver Stone com Maria Bello, Connor Paolo, Anthony Piccininni, Alexa Gerasimovich, Morgan Flynn, Michael Pena, Armando Riesco, Jay C. Flippen, Nicolas Cage e Michael Pena (Estados Unidos 2006) Dias depois do atentado de 11 de Setembro de 2001, no "Ground Zero" os bombeiros ainda esperam resgatar sobreviventes. Presos nos escombros estão dois agentes da Autoridade Portuária. Mas as coisas correm de mal a pior. Sem papas na língua, como é seu hábito, Oliver Stone narra bem à sua maneira o maior atentado terrorista perpetrado em solo americano.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Dos Não-Tão-Modernos-Como-Isso

O mais que puderes E se não conseguires fazer da tua vida o que queres, então pelo menos tenta, o mais que puderes; não a menosprezes no contacto abundante com o mundo, nas muitas acções e palavras. Não a menosprezes no vaivém frequente, expondo-a à estupidez diária de relações e amizades até que se torne um fardo estranho. Konstandinos Kavafis, 1905. Tradução de Carla Hilário Quevedo. (Traduzi este poema pela primeira vez em 1996, em Atenas. Esta é a quarta versão e não será a última.)

O repórter com que o editor sonha

CRONICA PUBLICADA A DOIS ANOS PELO JORNAL DE ANGOLA, MAS SEMPRE ACTUAL Prólogo: Erva daninha atrofia as flores e compromete a qualidade do mel! A primeira vez que entrou para uma redacção, saiu de lá decepcionado. Eram 16 horas e a porta principal abria e fechava-se constantemente. Um jornalista chegou com o rosto e a roupa cobertos de poeira. Parecia louco! Entrou em passo de corrida, procurou uma máquina, sentou-se, desfolhou um bloco de notas e começou a escrever. Mal havia começado, foi logo interrompido pelo colega do lado. Pela roupa e autoridade de um e pela sujeira e humildade do outro não teve dúvidas: um era chefe e o outro, subordinado. A decepção surgiu, contudo, quando constatou existir discrepância entre o que lia nas páginas do Jornal e o que ouvira durante a sua curta permanência naquele lugar “caótico”. Pensou então: “Não é possível. Afinal, jornalista pensa como nós!!!” Só mais tarde entendeu: 1º - Um era editor e o outro, repórter. 2º- Repórter não escreve o que pensa, mas narra factos ocorridos. Assim nasceu a sua paixão pelo jornalismo. Foi amor à primeira vista! Se hoje lhe perguntassem o que era o jornalismo, responderia: “é um pântano; quanto mais nos mexemos, mais nos entranhamos nele. Felizmente, a gente nunca está só!” A produção da notícia implica um trabalho de equipa, onde se envolvem todos, desde o pauteiro, motoristas, repórteres, fotógrafos, câmaras, paginadores, a arte e revisores, etc. A cumplicidade entre editores e repórteres permite um planeamento afinado da estratégia de ataque! Um carreto mal engrenado é um problema para o funcionamento da cadeia. Nessa cadeia salientam-se três etapas cruciais: a pauta, a apuração e a edição. “Tudo o que vem antes não é notícia; tudo o que vem depois não é jornalismo em sentido estrito, pois é gráfica e distribuição”(BASILE, 2002, pág. 95). Sendo assim, a qualidade da notícia a divulgar começa na capacidade imaginativa e criativa de quem vai elaborar a pauta ou o roteiro que contém uma série de hipóteses (boatos, denúncias, versão de uma notícia, telefonemas de leitores, ouvintes ou telespectadores, etc.), a confirmar ou não pelo repórter. Este deve orientar-se pela preocupação de levantar enfoques diferenciados sobre os temas, buscar ângulos novos de abordagem e mostrar agilidade na identificação de novas tendências. Através de leituras e pesquisas, o órgão de informação pode mesmo antecipar a abordagem de um acontecimento. A etapa seguinte é a de apuração: é aqui que entra em campo o “garimpeiro da informação”, o repórter. O repórter é o rosto visível dos jornais, rádios e televisões, pois é com ele que o público e as fontes têm contacto. O sonho de todo o jornalista é ser repórter, pois é esta a ocupação mais “prestigiante” nos meios de comunicação. (Dizem que quem chega a editor está perto da idade de reforma). Os repórteres, contrariamente aos editores, fazem sucesso junto da audiência e têm uma cadeia de fãs e um bloquinho com contactos telefónicos de fontes, desde a kínguila a ministros, generais eminentes, empresários, artistas famosos! Fazem inveja a qualquer um! Como soldado de um exército em derradeira ofensiva, eles envolvem-se na batalha pela notícia. Deles depende, em grande parte, o sucesso ou insucesso de uma edição. Por isso, é compreensível que todo o editor queira reunir em seu torno os melhores repórteres que a redacção possui. Mas isso é um sonho, difícil de concretizar, sobretudo em África, onde a imprensa ainda não é normalmente um negócio rentável. Raríssimos são os empresários que investem no ramo da comunicação. Como consequência, as dificuldades acumulam-se nas redacções do continente: os salários não são atractivos, há falta de estímulos, de transporte, de computadores e de escolas conceituadas de jornalismo, para além do preço elevado do papel, da impressão e das ligações telefónicas, acesso difícil ao crédito bancário e às fontes. Tudo isto afugenta os melhores profissionais, que buscam áreas circunvizinhas do jornalismo, como a assessoria de imprensa, ou então optam pela diáspora. A tendência do jornalismo, herdada do séc. XX, é a especialização, sobretudo, com a crescente segmentação da informação. Aliás, quem está habituado a ler jornais em Angola da primeira à última página, entraria em pânico quando comprasse o Washington Post ou O Globo, cada um deles com mais de 70 páginas, com matérias atractivas e devidamente estruturadas. Os consumidores de informação lêem, ouvem e vêem aquilo que lhes interessa. Quem gosta de desporto vai primeiro canalizar a sua atenção para esse espaço e só depois procura dar uma espreitadela em outras áreas. Por isso, é imperioso o aprofundamento no tratamento das notícias a divulgar em cada editoria que compõe a redacção, para atender a essa crescente segmentação. A vinculação do repórter a uma editoria é caminho aberto para a especialização. A especialização é definida como o resultado da divisão de trabalho. “Trata-se do conhecimento específico de determinado indivíduo sobre determinada área. No Jornalismo, para que se consiga precisão e aprofundamento, a especialização é requisito importante. Contudo, é preciso estar atento, pois, em princípio, o texto jornalístico não deve distanciar-se do leitor, mas, ao contrário, deve ser claro o suficiente para ser entendido pelo leigo, e profundo o bastante para ser útil ao especialista” (Manual escolar de redacção, 1994, 69). É claro que todo o jornalista tem a obrigação de saber redigir um texto, anunciando o vencedor de uma partida de voleibol, mesmo sem saber as regras do jogo. Mas não se escreve sobre buracos na estrada do mesmo jeito que se redige uma informação sobre macroeconomia, por exemplo. O repórter de que os editores gostam é inteligente, curioso, comunicativo e corajoso. Na posse da pauta, ele procura munir-se do máximo de informação sobre o assunto a abordar. Caso tenha ainda algum tempo, fala com o editor e com colegas de outras áreas, testa o equipamento(gravador etc). A Internet é um instrumento importante para pesquisa. Só depois vai atrás da confirmação das hipóteses levantadas. Mas não se detém apenas na pauta. Busca por iniciativa própria outras abordagens interessantes que tenham surgido ao longo da apuração. Tem faro para a notícia e descobre o gancho noticioso em factos ou discursos aparentemente banais. É obcecado pela verdade e por isso, duvida de tudo e de todos e sabe questionar! Quando sai à rua, o editor está descansado, pois “vem sempre coisa boa”. Mesmo numa conferência de imprensa, ele consegue ter um ângulo diferente e com valor mais noticioso. Tem porte físico e saúde para as correrias e embates. É incansável! Não fica todo o tempo a choramingar: “Não consegui, porque o ministro não quis falar...” Entretanto, o bom profissional diz: “ O ministro X não falou, mas falei com Y e a notícia está aqui”. É gente que faz. Aquele tem lágrimas, este tem alternativas. Não tem medo de perguntar. Está sempre atento e raramente é desmentido. Está no lugar certo, na hora certa. Lê jornais, livros e revistas, ouve emissões das rádios e vê a programação de estações de televisão. Está informado e o seu bom nível de cultura geral não o deixa cair. Álcool em horário de trabalho, nem pensar! Age com serenidade e tem tacto no relacionamento com a fonte. Sabe escrever bem e não mistura texto informativo com opinião, um erro frequente na imprensa angolana. Escreve com simplicidade e clareza. Não escreve “O gigante adormecido anda paralisado...”! Não “afina”, o que entende aliás como ofensa, sobretudo num país com mais de 70% da população analfabeta. Redige tudo sobre o que viu e ouviu, sem medo de não agradar o editor. Sabe pegar o ângulo mais importante do facto e apresenta mesmo ao editor sugestão de pauta para novas abordagens. O repórter com espírito de equipa cria, durante a reportagem, bom ambiente de trabalho. Incentiva fotógrafos e câmaras a procurar boas imagens e melhores ângulos. Investe em equipamento e na sua formação (línguas, informática, etc). Não vê isso como desperdício, mas como investimento. Que editor não adoraria ter um repórter assim? Os tempos estão maus, mas como diz Luiz António Mello, autor do Livro Sobrevivência na Selva do Jornalismo, “Sonhar é um direito assegurado pela Constituição”(MELLO, 1998, 48). Por isso, se ainda não tem, sonhe em comprar um telemóvel, um computador pessoal, ainda que usado, e compre um carro, um Toyota Starlet já dá jeito! Uma máquina fotográfica, digital seria ideal. Mande elaborar cartões de visita, pois são de grande utilidade. Se não tem carta de condução, matricule-se já. Com todos estes meios, o repórter estará mais tranquilo, pois é facilmente localizado e pode pontualmente estar em qualquer lugar, quando chamado de urgência. É na cumplicidade entre editores e repórteres que repousa, em parte, a longevidade e o prestígio de muitos órgãos de comunicação! Não esqueça de actualizar o passaporte e boa viagem! Estou a vir, ainda! * Augusto Alfredo, Licenciado em Comunicação Social, é Editor de Economia do “Jornal de Angola”, E-mail: augustoalfredo@hotmail.com Bibliografia: 1- BASILE, Sidnei. Elementos de Jornalismo Económico. RJ. Campus, 2002. 2-MELLO, Luiz António. Manual de Sobrevivência na Selva de Jornalismo. 2ª Edição. Niterói, RJ: Casa Jorge Editorial, 1996. 3- Manual escolar de redacção da Folha de S.Paulo. S.Paulo: Ática,1994.